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10 de jan. de 2010

TV Crítica: As novas receitas da dramaturgia nacional

por João Claudio Lins

2010 promete grandes novidades. As emissoras estão armadas, com produtos bons e novos formatos. Até mesmo a Rede Globo, com a sua folgada liderança, abriu mão, no último ano, da zona de conforto e arriscou propostas ousadas, estéticas e narrativas, como as séries "Decamerão", "Som e Fúria" e "Norma". Sinal de que a dramaturgia brasileira evoluiu, ficou mais madura e mais rentável. E não somente nos arredores do Projac. A Rede Record, por exemplo, mostrou que é possível fazer novela fora da sede global e chegar a um nível próximo do "Padrão Globo de Qualidade". O SBT rompeu contrato com a Televisa e partiu para as produções 100% nacionais, apoiadas em textos antigos de Janete Clair e Vicente Sesso. O panorama é otimista.

A produção dramatúrgica na TV aberta surpreende: são 7 telenovelas inéditas no ar. Um cardápio bem interessante para consumidores ávidos por este tipo de produto. Aí que entra a provocação desta coluna: com relação à estrutura narrativa, quais dos títulos em cartaz são realmente inovadores? O que você, telespectador, prefere: um bom feijão com arroz ou um marreco ao molho de café? Uma novela tradicional (e previsível) ou um enredo inusitado e surpreendente?

A TV vive de faturamento. Ponto. Por mais que haja excelência na produção artística, o que movimenta a folha de pagamento é o retorno comercial. A produção e a audiência em massa. Um modelo ainda em uso, mas já absolutamente condenado pela entrada do sinal digital.

Vamos à velha e boa metáfora gastronômica: hoje, a TV aberta tem que alimentar grandes conglomerados de audiência com uma mesma receita. Básica e pasteurizada. Daqui a alguns anos, o cardápio vai aumentar, assim como a procura por novos pratos. O bandejão popular vai perder adeptos. Logo, o telespectador vai querer – e poder – consumir o que tiver vontade: desde um ovo frito até uma lagosta. Do programa da Márcia a um seriado Cult.


Com a segmentação da audiência, as novelas poderão criar novos formatos e investir em outras propostas. Se isso será economicamente viável aí são outros quinhentos. Porque a ousadia tem seu preço. Pode render excelentes investimentos ou mesmo causar um enorme prejuízo. A Record, por exemplo, lançou dois produtos com linguagem inovadora: a malfadada novela "Metamorphoses" e a bem-sucedida trilogia dos 'Mutantes', de Tiago Santiago. Mesmo com todas as críticas, o autor conseguiu a façanha de alcançar picos de liderança no Ibope. E isso tudo no tempo da TV analógica, com público massivo, efeitos especiais grosseiros e um enredo fantasioso. Uma receita que agradou em cheio parte dos adolescentes. Tão popular quanto uma porção de batata frita. Uma é pouco, duas é bom. Três é demais. E dá náusea no final.

O arroz com feijão, aquele bem temperadinho, com os ingredientes na medida certa, entretanto, também tem seus adeptos. E é justamente essa receita que o autor Tiago Santiago (sim, o mesmo dos 'Mutantes') vai utilizar para reavivar a dramaturgia do SBT. Trata-se da adaptação de "Uma Rosa com Amor", de Vicente Sesso.

A trama, produzida pela 1ª vez em preto-e-branco em 1972, foi exibida com grande sucesso na Rede Globo. Veiculada no horário das 19h, contou com 220 capítulos, com destaque para a atuação de Marília Pêra como a solteirona Serafina.

"Uma Rosa com Amor" foi uma das primeiras novelas da Globo com elementos de comédia romântica, o que se tornaria, mais tarde, a marca do horário das 19h. Na versão de Santiago, com a colaboração de Renata Dias Gomes e direção-geral de Del Rangel, o enredo vai permanecer fiel ao original, com temas já bastantes conhecidos pelo público: amor, casamento, família, disputas, traições, cobiça, solidariedade e amizade. As questões serão abordadas por uma perspectiva doce e bem humorada.

Seguindo referências do neo-realismo, "Uma Rosa com Amor" brinca com perfis estereotipados e cômicos, como a moça que ficou sem namorar depois de uma grande decepção amorosa, o fanho, a nova rica ambiciosa e fútil, o malandro e o pai protetor.


O elenco escolhido é popular e reúne nomes como Carla Marins, Luciana Vendramini, Etty Fraser, Isadora Ribeiro, Betty Faria, Carlo Briani, Claudio Lins, Monica Carvalho, Edney Giovenazzi, Toni Garrido, entre outros.

Maria Cláudia, Tiago Santiago, Lúcia Alves e Del Rangel


O SBT parece estar disposto a retomar – pela enésima vez – a sua dramaturgia. A emissora, conhecida pelos espasmos criativos do patrão, já adotou inúmeras cartadas ousadas, como a reprise de "Pantanal", da extinta TV Manchete.

Desta vez, a estratégia é outra: trilhar um caminho conhecido pelo público e apostar no óbvio ululante. Uma receita, a princípio saborosa, que pode virar praxe na mesa ou mesmo enjoar no decorrer dos dias. Prefiro o marreco ao molho de café, mas ainda assim devo experimentar esse novo prato-feito do Silvio Santos. Numa dessa eu acabo gostando.

2 de nov. de 2009

TV Crítica: Pegadinhas brochantes

por João Claudio Lins


Na madrugada de sábado para domingo, logo depois da reprise do "Custe o que Custar", a Band exibe o "Cine Privè". Em cartaz, filmes baratos e duvidosos, muitos deles já populares, como as estripulias da fogosa Emanuelle. Uma orgia mental para telespectadores que aprendem desde cedo o que é banalização do sexo e como se perpetua a imagem da mulher objeto. O horário é permissivo, 01h45. Ainda assim, tais produções estão em exibição, encruadas na programação aberta, "livres" para todas as idades, sem qualquer filtro. Basta ligar a TV. Neste caso, o apelo erótico é explícito. Menos mal.

O problema acontece quando o produto vem com uma falsa embalagem, sugerindo uma proposta humorística, em um horário absolutamente inadequado. Não, caro leitor, não se trata de "A Praça é Nossa", tampouco do "Superpop". O buraco é mais embaixo.

Quando todos pensavam que a TV já havia conhecido o fundo do poço, Silvio Santos chega, sorrateiramente, e solta mais uma de suas pilhérias. Sem muito estardalhaço, estreou no SBT, no dia 14 de setembro, às 22h, o programa "Pegadinhas Picantes". Uma série de televisão caracterizada por cenas de humor em que as pessoas são pegas de surpresa ao observar situações bizarras de nudez.

Produzidos na Ucrânia pela AFL Productions e Comedy Central, sob a alcunha "Naked and Funny", os esquetes apostam em um erotismo gratuito e vazio, com atores trajando sungas com enchimento frontal e modelos nuas em situações "inusitadas". Entre os quadros, alguns desenhos animados sugerem sexo implícito, com o objetivo de apimentar a atração. Destaque especial para a tradução dos títulos da versão brasileira que, de tão ruins, chegam a ser engraçados.

Em "Pegadinhas Picantes" nada é falado, o que deixa o programa ainda mais esdrúxulo. Acompanhados por música e onomatopéias, os quadros unem o erotismo ao pastelão, não se adequando perfeitamente em nenhuma das duas categorias. O resultado é patético. O áudio da reação das vítimas não é capturado, sendo substituído por gestos de mímica. É o tipo de programa que poucos telespectadores assumem acompanhar. Dá vergonha de admitir. No entanto, os dados apontam para uma realidade diferente. Na faixa das 22h, os esquetes rendiam até 10 pontos no Ibope.

O SBT já tem tradição em inserir o erotismo em alguns de seus programas. Difícil esquecer da polêmica e controversa banheira do Gugu, do insinuante "Cocktail", apresentado por Miele na década de 80, e do horrendo humorístico "Sem Controle", rifado da programação há poucos anos. Atrações que atraíram certa audiência, mas que sujaram a credibilidade da emissora e afastaram muitos anunciantes.

Com a mudança das 22h para as 23h, na segunda-feira (26/10), as "Pegadinhas Picantes" perderam 4 pontos no Ibope. Às 23h, o programa caiu para 06 pontos. A troca de horário foi por conta de reclamações de telespectadores. Às 22h, o SBT colocou no ar "Boletim de Ocorrências", com Joyce Ribeiro. Outra atração popularesca para tapar o buraco da programação. Que convoquem o "Chaves", então. Sai mais barato e dá retorno.

Silvio Santos adora polêmicas. E responde aos ataques com sarcasmo. Foi assim que o recado foi dado aos que "não gostam de ver belas garotas à vontade" na TV, através de uma chamada irônica, comunicando a troca de horário das "Pegadinhas Picantes". Como se não bastasse o terrorismo gravado, editado e exibido com a Maisa, os escrachos com os convidados, como o recente episódio com a dançarina Carla Perez, agora Silvio Santos aposta na vulgaridade para alavancar os índices. Audiência barata que pouco ou nada vai agregar à programação. Para alguns pode até ser excitante. Mas para o departamento comercial e para a imagem institucional da emissora, esse decreto é broxante.

20 de jun. de 2009

TV Crítica: Nos bastidores da Anhanguera

por João Claudio Lins - Publicitário

O circo está armado. Especulações por todas as partes, um disse-que-disse generalizado, um bafafá desenfreado nos bastidores. Eis o mais novo capítulo da competição entre a Record e o SBT: a disputa pelo passe de Gugu Liberato (foto), de 50 anos.

A peleja, entretanto, vai além de uma mera questão de valores. Assume um forte valor simbólico. Trata-se de um dos pilares da emissora da Anhanguera. A possível perda pode acarretar em um sério dano institucional e representar a derrocada da identidade da emissora de Silvio Santos, que vem sofrendo de sucessivos arranhões em sua imagem.

A proposta da Record é generosa: renda mensal de R$ 3 milhões, um programa dominical e uma série de benefícios, como aumento do espaço na grade nos próximos oito anos, período do contrato. Especula-se, ainda, que a emissora de Edir Macedo oferece um espaço na Record Internacional, o canal brasileiro mais acessível no exterior.

Caso aceite, Gugu poderá ser visto em 160 países. O vínculo do apresentador com o SBT encerra em março de 2010. Caso optem por quebrar o contrato, a rescisão gira em torno de R$ 15 milhões.

Situação semelhante aconteceu em agosto de 1987. No auge do extinto “Viva a Noite”, Gugu assinou um contrato com a Rede Globo. A notícia gerou polêmica e estampou tablóides e revistas de fofoca.

Inconformado, no sábado de Carnaval de 1988, o empresário Silvio Santos foi pessoalmente à sala do dono da emissora carioca, Roberto Marinho, para pedir a permanência do apresentador no SBT.

Nesta negociação, Augusto Liberato recebeu uma proposta milionária: um salário dez vezes maior, parte da programação de domingo e ganhos com publicidade.

A relação do apresentador com Silvio Santos é antiga. Gugu começou na televisão aos quatorze anos, como assistente de produção do Domingo no Parque. Desde então, passou a ter sua imagem vinculada ao homem do Baú.

Sua passagem no SBT é marcada por altos índices no Ibope, em especial no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando emplacou sucessivas vitórias contra a Rede Globo. Ainda hoje é a maior audiência da casa.

Para o SBT, perder o apresentador implica em abrir mão de parte de sua história. Significa virar a página de uma parceria que já fez grande sucesso e que ainda gera uma excelente receita publicitária.

E o pior: fomenta ainda mais o status de um canal decadente. Segurar o moço loiro na Anhanguera é uma questão de orgulho. Talvez uma necessidade de sobrevivência.

De algum vínculo com o SBT do passado, uma rede popular, inovadora e até inconsequente, que enfrentou uma hegemonia pesada com uma programação criativa e diferenciada.

26 de mai. de 2009

TV Crítica: A Fabulosa Fábrica de Neuróticos

por João Claudio Lins
ilustração: Equipe Mundo da TV Aberta


Basta um zapping. Uma rodada entre os canais abertos para comprovar a inadequação da programação televisiva para as crianças.

No SBT, o apresentador Ratinho esquenta a audiência noturna, passando o bastão para séries enlatadas, incapazes de incitar nos pequenos qualquer tipo de reflexão aproveitável.

Na Band, a situação piora. Entre berros e matérias que apelam para uma carnificina desenfreada, Datena destila comentários violentos, ilustrados por imagens fortes e impactantes.

Trocando de emissora, na RedeTV!, é possível encontrar algo um pouco mais apropriado, mas ainda bem distante do ideal: os desenhos violentos do “TV Kids”. O problema está logo depois da sessão de animes, no apelativo “TV Fama”, com bastidores de ensaios sensuais, matérias fúteis e “flagras” sobre a vida dos “famosos”. Muda de estação.

Na Globo, aquela velha fórmula de sempre: novela 1, jornal, novela 2. São folhetins um pouco mais leves, mas que trazem mensagens adultas e assuntos polêmicos.

Na Record, um respiro: o antiquíssimo “Pica Pau”, seguido de outros produtos jornalísticos. Filtrando a grade das principais emissoras comerciais, das 17h às 20h, eis o resultado do que poderia ser assistido pela garotada: um cartoon da década de 50 e desenhos japoneses.

Desligar a televisão e propor outras atividades pode ser uma boa oportunidade de distrair as crianças no início da noite. No entanto, estamos no Brasil, um país subdesenvolvido, repleto de proletariados que trabalham muito além da carga horária ideal. Uma nação que cultua a babá eletrônica e que vê nela uma forma eficaz de ocupar a mente dos pequenos ociosos.

Nas redes abertas, as únicas alternativas viáveis de oferecer entretenimento de qualidade são as TV’s Educativas, muitas vezes escondidas em sinais UHF. De fato, os canais comerciais vivem de faturamento.

Investir em um público segmentado, no horário noturno, é arriscado e pode comprometer as vendas. Algumas dessas emissoras, contudo, já apostaram em dramaturgia para as crianças. Experiências ousadas que obtiveram boa audiência e excelente faturamento.
  • Os primórdios da dramaturgia infantil:

A televisão ainda engatinhava. Algumas poucas telenovelas já haviam sido exibidas quando a TV Tupi lançou, baseada na obra homônima do escritor alemão Hans Erich Seuberlich, “Angelika”, voltada especialmente ao segmento infantil.

O folhetim, exibido em 1959, era exibido ao vivo, em preto e branco. Como não havia videoteipe, não restaram registros desta obra. Apenas fotos e lembranças de uma produção ingênua, bem caprichada para a época.

  • As produções recentes: as novelas musicais de Cris Morena adaptadas no Brasil:

Um orfanato, um triângulo amoroso, uma governanta mal amada e crianças à mercê da caridade alheia: os ingredientes perfeitos para um dramalhão repleto de clichês. Ledo engano.

Essa fórmula, criada por Cris Morena (foto) em 1995, atravessou a Argentina, sua nação de origem, e conquistou diversos países, incluindo aqueles com forte vocação em dramaturgia, como o Brasil e o México.

A trama, batizada de “Chiquititas”, teve a sua versão brasileira produzida entre 1997 e 2000, com cerca de 700 capítulos, exibidos com algumas pequenas pausas durante as férias.

O grande destaque da trama exibida pelo SBT, contudo, não foi propriamente o seu enredo, mas sim os seus interessantes musicais, com temas lúdicos e rimas fáceis. O formato musicado de Morena obteve enorme aceitação. Empatia que gerou uma farta receita publicitária, com o lançamento de bonecos, revistas, peças de teatro, CDs e muitos outros badulaques com a marca da novela.

A mesma autora teve outra trama bastante popular no Brasil, desta vez na Band: “Floribella”. Voltado para todas as idades, o folhetim teve 2 temporadas, aproximadamente 340 capítulos e 2 álbuns com a trilha sonora original.

O recurso do videoclipe, assim como em “Chiquititas”, foi amplamente utilizado. A linguagem jovem e o visual multicolorido inspiraram muitas crianças e pré-adolescentes, que tinham à disposição dezenas de produtos licenciados.

  • A dramaturgia infantil brasileira:

No Brasil, várias novelas foram direcionadas para o público infanto-juvenil. Algumas delas contiveram apenas núcleos com a garotada, enquanto que outras assumiram completamente essa segmentação, com histórias criativas e alguns personagens fantasiosos. Destaque para o “Meu Pé de Laranja Lima” (Band) e “Caça Talentos” (Globo).

O trunfo da dramaturgia infantil brasileira, entretanto, está nos seriados, com forte destaque para a TV Cultura, ganhadora de diversos prêmios por suas produções. A trilogia “Rá-Tim-Bum”, do escritor e diretor Flávio de Souza, foi sucesso de crítica e já garante o seu status de “clássico”.

Outros títulos merecedores de aplausos: “O Menino Maluquinho”, “Cocoricó” e “Turma do Pererê”. Até mesmo as TV’s comerciais já tiveram seus dias de glória, como o “Sítio do Picapau Amarelo”, “Vila Sézamo”, “Shazan, Xerife & Cia” (foto), além dos programas especiais, como os inesquecíveis “Pluct Plact Zum” e “A Arca de Noé”.

  • O diagnóstico:

A TV aberta amarga uma das piores safras de atrações infantis da história. Destaque para o lastimável desempenho da pequena Maisa no “Programa Silvio Santos”. A menina tinha sua intimidade invadida todo domingo e frequentemente era ridicularizada no palco. Uma exposição desnecessária que pode trazer sérias consequências para a garota.

Diante deste cenário, fica a pergunta: existe diversão saudável na TV aberta? A resposta é afirmativa. Basta sintonizar as redes públicas. Nelas, é possível encontrar opções inteligentes de entretenimento que podem contribuir efetivamente para o desenvolvimento das crianças. Outra boa alternativa são os canais pagos.

O lamentável é que, aqui no Brasil, o acesso aos bons serviços é cobrado. Em outras palavras: filho de pobre tem que se contentar com as imbecilidades da Xuxa. Deve enfrentar as filas do SUS quando ficar doente e se submeter à educação precária da rede pública. Essa é a realidade do nosso país. Os humildes são nutridos pela ignorância e pelo total esvaziamento intelectual, desde muito cedo.

A televisão, mais do que entreter, passou a cumprir um caráter educacional. Função que nunca foi dela. Assim, em vez de contribuir na formação dos indivíduos, a TV deforma esse processo. Quer saber mais? Pergunte para a Maisa.

14 de mai. de 2009

TV Crítica: O Diário Secreto do "Superpop"

por João Claudio Lins

A nova música de Rita Cadilac, o lançamento do filme pornô de Julia Paes, o mais recente hit de MC Créu, as confissões de Thamny Gretchen e a banheira erótica da Mulher Moranguinho: estas são algumas atrações do "Superpop", exibido de segunda a quinta-feira por Luciana Gimenez.

Há quase 10 anos no ar, o programa aposta no grotesco e no sensacionalismo, com temas – e factóides – polêmicos, geralmente acompanhados de um ar kitsch de jornalismo investigativo. O ambiente perfeito para sub-celebridades armarem os seus barracos e discutirem futilidades, que, na maioria das vezes, não levam ninguém a lugar algum.

Em sua primeira fase, ancorada por Adriane Galisteu, o "Superpop" teve uma roupagem jovem, com tons explicitamente inspirados na cultura pop. O DJ Zé Pedro, com seu vestuário extravagante compunha um mix bastante divertido.

Mesmo com um orçamento enxuto, a pauta era criativa e variada, atraindo, segundo pesquisas daquele ano, mulheres entre 25 e 40 anos e médias em torno dos 3 pontos, significativos para uma emissora iniciante.

10 meses depois, Galisteu, sem aviso prévio, trocou a RedeTV! pela Record. O golpe foi tão imprevisto que uma solução de emergência teve de ser arquitetada. Assim, Otávio Mesquita e Fabiana Saba foram escolhidos para cobrir o buraco.

De mãos atadas, os diretores sentenciaram que a escolha da substituta de Adriane seria anunciada por votação direta dos telespectadores. Além de Luciana Gimenez, várias opções foram cogitadas, como Monique Evans, Astrid Fontenelle, Susana Werner, Rita Lee, Luana Piovani e Cátia Fonseca.

Apesar de não ter sido a candidata mais votada pelo público - que elegeu Monique Evans como preferida - Luciana foi a felizarda "por se encaixar mais com o perfil do programa". Logo em sua estréia, a ex-modelo foi implacavelmente achincalhada por causa dos deslizes que cometia contra a língua portuguesa, fruto de doze anos de vivência no exterior.

Em entrevista para a Revista TPM, a apresentadora mostrou ter superado todas as críticas: “Eu mudei do Brasil com 16 anos e perdi a fluência. As pessoas que ‘jogaram pedra na Geni’, hoje se sentem culpadas e têm um carinho extra por mim” - completa.

Questionada sobre a qualidade dos temas exibidos no palco, Luciana responde com ironia. Diz não se tratar de baixaria, mas de conflito social. Relembra, ainda, as importantes entrevistas e matérias que realizou. Destaques para Fernando Collor, Britney Spears, Bryan Adams, Mick Jagger e Marta Suplicy.

Defende também já ter privilegiado pautas de interesse público, como parto na água, HPV e câncer de mama. Esses assuntos, contudo, não rendem bons índices no Ibope, segundo o parecer da apresentadora.

A receita da “popularidade” é previsível: sensacionalismo barato, manchetes chamativas e pautas extravagantes. Para acalorar o espetáculo, participam modelos, parentes de famosos, ex-'BBB's', garotas de programa, médicos e especialistas, discutindo, juntos, temas polêmicos, como homossexualidade, prostituição, cirurgia plástica e religião. Às vezes, o debate toma rumos inadequados, com opiniões de quem pouco ou nada sabe do que está falando. Patético!

Outra característica reincidente é a predileção por certos convidados, como Thammy Gretchen. A filha da rainha do rebolado sempre entra em cena para abordar a sua orientação sexual: desabafo, desculpas à mãe, filme pornô gay, desejos e relacionamentos.

Com intuito de apimentar a contenda, a produção escala alguns “antagonistas”, que se prestam a espezinhar a moça, com comentários homofóbicos. Arma-se, então, um barraco esdrúxulo, com direito à gritaria da platéia e às caras de bocas de Gimenez.

O programa conta ainda com vários outros quadros, como “O Diário Secreto”, um rascunho do “Arquivo Confidencial” do Faustão. Só que, em vez de Regina Duarte no papel de homenageada, o centro das atenções é Bruna Surfistinha.

Há também os desfiles de moda, às quartas-feiras, em que moças desfilam lingeries no palco. A união perfeita do merchandising com o apelo erótico. Em seguida, entra Ronaldo Ésper, com a sua avaliação da roupa dos famosos. O estilista, depois do caso do roubo de vasos no cemitério, ganhou um pouco de senso do ridículo, mas não o suficiente para impedi-lo de dançar suas músicas.

Por fim, tem o insuportável “Popparazo”, um rapaz que persegue as celebridades com a sua câmera. Nas imagens, flagras imperdíveis, como a Gretchen comendo pastel de carne, Vivi Fernandes tomando caldo de cana com um “suposto affair”, e outras pérolas do gênero.

Na tentativa de elevar o nível da atração, a RedeTV! buscou promover, em dias específicos, pautas jornalísticas e investigativas, como "Na Mira da Mídia”, um quadro que mostra apenas os casos mais conhecidos e batidos da semana.

Destaque para a entrevista de Alexandre Jatobá, pai de Anna Carolina Jatobá, entrevistado sobre o suposto crime que a filha teria cometido. Outra edição controvérsia foi protagonizada pelos sargentos Laci Marinho de Araújo e Fernando de Alcântara Figueiredo. O interrogatório se transformou em um show, quando ao vivo, foi informada a prisão de Araújo pelo Exército.

Esta postura mais séria do "Superpop", contudo, não cobriu com sucesso nem a proposta inicial de entretenimento, tampouco a cobertura de informações jornalísticas. Assim, a direção resgatou, sem grandes inovações, um velho formato, que fez muito sucesso em meados da década de 90: a “banheira”.

Em vez da água, todavia, apostaram em um novo ingrediente: o chantili. Tudo para justificar a presença da insinuante Mulher Moranguinho, incumbida de impedir com que os rapazes recolham as frutas. Um verdadeiro show pornô, com picantes closes ginecológicos. O mesmo esquema do falecido quadro do Gugu, mas em um horário bem mais permissivo.

O mais curioso é que o "Superpop" não é tão povão como sugere seu nome. Seu perfil é altamente qualificado, assistido diariamente por cerca de 250 mil telespectadores (só na Grande São Paulo), de classes predominantemente A e B, segundo o Ibope.

A audiência também é interessante, uma das maiores da RedeTV!. É o típico programa que as pessoas escondem acompanhar. Muitas delas se dizem abduzidas no momento do zapping. Pura balela! As madames também apreciam uma boa baixaria na TV, desde que salvaguardadas no silêncio de suas salas. O trash seduz. Quem nunca foi atraído que atire a primeira pedra.

9 de abr. de 2009

TV Crítica: "Big Brother Brasil", a voz dos excluídos

por João Claudio Lins

Esta semana, o Brasil conheceu o mais novo vencedor do "Big Brother Brasil": Max Porto (foto). Com apertados 34,85% dos votos, o carioca venceu Priscila e Francine e conquistou o prêmio máximo do programa.

De quebra, ainda terá seus 15 minutos de fama que, se bem administrados, podem render mais alguns rendimentos. Final feliz para o bem, punição para o mal (se é que esta edição teve algum vilão de fato) e a resolução de uma trama de conflitos que atraiu os sentimentos de compaixão e justiça em mais de 40 milhões de espectadores-consumidores.

Enfim, os brasileiros podem começar o ano e tocar suas vidinhas adiante. A novela acabou e, com ela, todos os argumentos de luta, usados pelos participantes do jogo, para transpor as barreiras da vida e das armadilhas de seus adversários. O povo fez a sua parte. Endossou um investimento milionário que não vai levar ninguém a lugar algum.

O formato do "Big Brother" não por acaso tem os ingredientes de um melodrama. Os aspirantes à fama são escolhidos entre milhares de candidatos, por meio de uma seleção direcionada, pressupondo certos encadeamentos, já que eles foram eleitos segundo características físicas e emocionais preestabelecidas.

Lá estão a mocinha, a gostosa, o bonitão, a chorona, os vilões e, como não poderia deixar de ser, os representantes das minorias.

Durante 9 edições, os telespectadores assistiram a verdadeiras “tramas comportamentais”, com a real possibilidade de interagir com o enredo, punindo ou premiando a ação dos “brothers”, através de atividades programadas, como o “Big Boss” e a “votação popular”.

Ao longo dos paredões, os participantes foram assumindo seus personagens. Fato curioso é a predileção do público brasileiro pelas "minorias sociais". No BBB observa-se que os candidatos mais populares repetem um padrão de identidade associado a arquétipos de personalidade.

Listemos os vencedores de todas as temporadas: o ignorante boa praça (Bam Bam), o rústico (Rodrigo Caubói), o caipira influente (Dhomini), a babá de bom coração (Cida), o intelectual gay (Jean), a mãe da menina com necessidades especiais (Mara), o herói (Diego Alemão), o feirante fiel (Rafinha) e, finalmente, o artista sincero (Max).

Margaret e Pearson (2001)¹ definiram 12 arquétipos que se expressam na vida das pessoas. Alguns deles são facilmente identificados nos participantes do programa. São eles: o prestativo (Mara, "BBB 6"); o governante (Jean Willis, "BBB 5"); o bobo da corte (Fran, "BBB 9"); o cara comum (Buba, "BBB 4"); o amante (Thyrso, "BBB 2"); o herói (Alemão, "BBB 7"), o fora-da-lei (Tina, "BBB 2"), o mago (Monge, "BBB 6"), o inocente (Bam Bam, "BBB 1"), o criador (Iris, Alemão e Fani, "BBB 7"); o explorador (Doutor Rogério, "BBB 5") e, por fim, o sábio (Jean Massumi, "BBB 3").

No "Big Brother Brasil 5", Jean Willis inflamou o programa ao se declarar gay e denunciar homofobia dentro da casa. Na condição de "minoria oprimida", caiu nas graças do público e da crítica.

O caminho adotado pelo psiquiatra Marcelo, na 8ª edição do reality, contudo, foi diferente. De forma consciente ou não, ele buscou explorar a roupagem sexual mais adequada para ser aceito por seus pares.

Ambas personalidades se destacaram na competição. O escritor baiano faturou a premiação da 5ª temporada, vencendo, inclusive, Grazi Massafera. Um avanço e tanto para um país ainda homofóbico e preconceituoso.

Fazer parte da minoria, contudo, não é fator determinante para o jogo. Esta edição do "BBB", por exemplo, contou com 2 “brothers” da 3ª idade: Naiá (61) e Norberto (63). Ambos foram eliminados pelo público, com 52% e 55% dos votos, respectivamente.

No Brasil, ao contrário das versões internacionais, o "Big Brother" costuma separar dois sub-grupos de personalidades: os “marginalizados” e os "aspirantes à fama", com seus biotipos esculturais e certo grau de arrogância ou isolamento.

A seleção destes "excluídos", além do jogo cênico que proporcionam, tem uma explicação comercial muito clara: gera identificação com um público consumidor em franca expansão. As classes C, D e E, enfim, viram-se representadas na tela da Rede Globo. Desta vez no papel de herói da vida real. Com isso, esse estrato populacional passou a interagir com o programa, na esperança de compensar seus personagens favoritos da pobreza em que viveram ou pela vida difícil que tiveram.

Vitória dos excluídos, da esperança e da demagogia. O "Big Brother", mais que um microcosmo da realidade brasileira, tornou-se uma reação global a um ato de preconceito que nos revela que as minorias estão se dando conta de seu poder.

¹ MARK & PEARSON (2001). O Herói e o Fora-da-Lei: como construir marcasextraordinárias usando o poder dos arquétipos. Cultrix, São Paulo.

31 de mar. de 2009

TV Crítica: O filé mignon da segunda linha

O "Quarto Branco" foi uma das novidades deste ano.

por João Cláudio Lins

Todo início do ano é assim: calor, recesso escolar, viagens e carnaval. Motivos suficientes para tirar o telespectador da frente da televisão. No verão, alguns programas têm sua audiência reduzida em mais de 30%, o que pode comprometer seriamente o seu faturamento.

Diante desta evasão, comum nesta época, as emissoras começam a repensar suas grades. Reprisar os melhores momentos das atrações durante as férias dos apresentadores, por exemplo, tornou-se um luxo inadmissível.

Os índices desabam, bem como as veiculações comerciais e as ações de merchandising. A ordem agora é deixar edições inéditas pré-gravadas. O público já não engole qualquer coisa, ainda mais com um dia de sol como concorrente.

Com orçamento reduzido e audiência em dispersão, as redes de TV têm que usar e abusar da criatividade para gerenciar formatos que ocupem a programação de forma econômica e lucrativa.
A Rede Globo, por exemplo, interrompe, de janeiro a abril, a sua principal linha de shows. Nos anos 90 esta lacuna passou a ser preenchida com filmes e minisséries. Na última década, contudo, a emissora encontrou sua galinha dos ovos de ouro: um formato de reality show que revolucionou os hábitos dos telespectadores brasileiros. Assim nasceu o "BBB", um suculento filé mignon em tempos de vacas magras.

Em sua 9ª edição, o programa já mostra sinais de desgaste. A audiência, na casa dos 35 pontos, permanece como uma das maiores da Rede Globo, mas bem distante das versões anteriores, que atingiram médias de 45.

A surpresa é que, do ponto de vista comercial, será a mais lucrativa de todas, com uma receita recheada de cotas de patrocínio, merchandising, anúncios, espaços vendidos na casa, assinaturas de pacotes na TV paga, chat em telefonia celular, entre outros.

O "Big Brother" tornou-se um produto altamente rentável porque que investe em outras plataformas além da TV aberta: sistema Pay Per View ("BBB" 24h), programa na TV fechada (na Multishow), telefonia celular (para voto e obtenção de áudio dos participantes) e internet (portal Globo.com). Juntas, formam uma receita milionária, capaz de equilibrar o faturamento da emissora mesmo em tempos de crise.

O "BBB" tem seus méritos. Vive se reinventando. Destaque para os editores e os roteiristas, que criam enredos interessantes, como uma telenovela, com vilões, mocinhos e tramas paralelas. Um dos grandes apelos deste formato, contudo, está na possibilidade oferecida aos fãs de intervir nos rumos da narrativa.

Assim, a audiência interfere na construção do produto a ser consumido e – pasmem – paga por isso. Seja pela ligação de celular, na qual a Rede Globo tem participação, seja gerando grande volume de acesso na página da internet, que é revertido em receita publicitária para a Globo.com.

Com relação ao conteúdo, o "BBB" abre amplas discussões para críticas, debates e discussões. No aspecto comercial, entretanto, o formato é unânime. Ele substitui cinco programas da linha de shows, com custo bem menor. Dá mais audiência e fatura muito mais. Explora outras plataformas, novas mídias e interage com o público.

Talvez não seja uma diversão tão saudável e ética, que agrega conteúdo à família brasileira. No mundo dos negócios, entretanto, esses valores são apenas meros detalhes.
  • E vôce, o que acha do "Big Brother Brasil 9"? Comente.

17 de mar. de 2009

TV Crítica: Novos hábitos: a mudança no consumo das telenovelas brasileiras

SBT voltou a investir em telenovelas no ano passado, depois de um período parado.

por João Claudio Lins

Demorou mas aconteceu. O consumo da telenovela brasileira, tão cultuada pelos quatro cantos do mundo, enfim se abriu para o mercado interno. O comportamento da audiência se diferenciou, dando espaço para produções segmentadas e novos formatos.

A dramaturgia nacional evoluiu, ganhou novos personagens e até mesmo uma nova vilã, disposta a tudo para roubar uma fatia mais polpuda do mercado e desbancar uma liderança que perdura por décadas. Desenlaces surpreendentes, traições e disputas: a novela das novelas chega ao seu clímax com a promessa de muitas emoções para os próximos capítulos.
  • Os personagens:

Vamos aos protagonistas. No papel principal, destaca-se a “heroína”, a Rede Globo, detentora de 3 novelas inéditas, uma reprise e um seriado adolescente. Uma emissora de forte apelo popular e reconhecimento por suas obras.

No lado oposto, a antagonista Rede Record ataca com 2 produções em curso e 1 repeteco nas tardes. Completando o triângulo, no núcleo cômico, encontra-se o SBT que, de modo quase que patético, transmite “Revelação”, escrita pela mulher do patrão. Há ainda os figurantes, que exibem melodramas importados, como a CNT, mas eles raramente aparecem no contexto.

  • A trama:

Flashback para ambientar a história e a rivalidade dos protagonistas: 1999. Tínhamos uma Rede Globo prepotente e invicta, com suas novelas em alta, faturando muito bem, com algumas ameaças do SBT, que frequentemente emplacava algum “furacão mexicano”. Na Record, a dramaturgia nacional engatinhava, com produções baratas de retorno minguado.

  • A reviravolta:

No início dos anos 2000, o SBT ousou em firmar uma parceria com uma das maiores exportadoras de conteúdo do mundo – a emissora mexicana Televisa. Deste acordo, que durou 8 anos de co-produções, surgiram alguns destaques, como “Pícara Sonhadora”, “Marisol” e “Esmeralda” que, embora tivessem textos sofríveis, garantiram médias significativas.

Neste tempo, o SBT chegou a exibir no mesmo dia até 6 novelas da Televisa (inéditas e reprises). Cômico se não fosse trágico.

  • O clímax:

A ameaça à hegemonia das produções globais, contudo, não estava no SBT, mas sim na Rede Record, que a partir de 2004 passou a se utilizar da mesma fórmula da emissora líder. Desde que injetou cifras miliomárias em sua programação, a rede da Barra Funda entrou na dramaturgia disposta a investir pesado em elenco, em texto e em produção.

O primeiro golpe foi apostar na ousadia: estreou em um domingo a telenovela “Metamorphoses”, em parceria com a produtora Casablanca. O resultado foi desastroso. Um enredo que se perdeu pelo caminho, obtendo índices irrisórios.

A grande tacada, entretanto, viria logo a seguir, com a estréia do remake de “A Escrava Isaura”, que rendeu média de 13 pontos e picos de 25 em sua reta final.

  • O núcleo cômico:

Com o sucesso de “A Escrava Isaura”, a Rede Record engatou vários sucessos e investiu em novos horários e temas. Eis que surge o inusitado: uma trama romântica que tem como pano de fundo uma história que envolve mutantes.

Com índices animadores, a Record engata uma 2ª temporada, com um enredo que beira o absurdo, concorrendo direto com o principal produto da sua rival. Desde então, a novela global pena para chegar aos 40 pontos de audiência na faixa das 21h (sendo que a meta é 45).

Neste cenário de guerrilha entra em cena o atrapalhado SBT, que resolve investir na dramaturgia nacional e contrata Íris Abravanel, a esposa de Silvio Santos, para escrever uma trama recheada de improviso, amadorismo, pieguice e escracho, apesar de nada disso constar na sinopse original.

  • A análise por trás do enredo:

Esse melodrama dos bastidores das novelas é uma obra aberta. Portanto não há como supor o desfecho dos protagonistas. Pode ser que venha um furacão e elimine metade dos personagens e mude todo enredo, assim como fez Janete Clair em “Anastácia, a mulher sem destino”, em 1976.

De repente, a antagonista pode vencer e se tornar absoluta com suas tramas. Ou mesmo ser esmagada pela líder. Há ainda a remota possibilidade de o núcleo cômico, encabeçado pelo SBT, se destacar com alguma palhaçada, “arma secreta” ou “espasmo criativo” do patrão.

A diminuição dos índices de audiência – ou a pulverização deles, melhor dizendo – não indica que a dramaturgia brasileira esteja em crise. Mostra que o telespectador está aberto a novas propostas e que o mercado televisivo, mesmo em meio a uma crise mundial, ainda está aquecido.

Com isso todos ganham: o mercado anunciante, a equipe de produção, os investidores e o público. Final feliz. Até que alguém inove mais uma vez e invista em outros formatos mais rentáveis. Mas aí já é enredo para uma outra história.

22 de out. de 2008

TV Crítica: A nova geração do humor brasileiro

por João Cláudio Lins

O humor passa por um momento de amadurecimento. O gênero “comédia stand up”, cada vez mais popular no Brasil, possibilitou a apresentação de ótimos textos, sem a necessidade de grandes investimentos em recursos técnicos. É a vitória do conteúdo.

Um microfone na mão e muitas idéias na cabeça: os elementos necessários para uma encenação divertida, irreverente e improvisada. Redigir tais roteiros, contudo, exige velocidade de raciocínio, estudo e conhecimento multidisciplinar.

Hoje, as piadas estão datadas, cada vez mais temporais e contextualizadas com o cenário sócio-político e econômico. A opinião pública, enfim, despertou para o humor inteligente.

Os formatos televisivos têm seu ciclo de vida. Eles envelhecem e o público se renova. Isso não quer dizer que o humor de Chico Anysio esteja fadado ao esquecimento. As novas gerações, todavia, desconhecem cada vez mais o trabalho deste grande humorista.

O fato de estar fora do ar amplia ainda mais este ostracismo. Há ainda os programas que não se reinventaram com o tempo, como o caquético “A Praça é Nossa”.

A estética, o roteiro, o cenário e as piadas cheiram a naftalina. O enredo insiste em privilegiar a sexualidade, a homofobia e as piadas de duplo sentido.

O “Zorra Total” também investe em uma estrutura semelhante à da "Praça", com algumas vantagens: o amparo técnico da Rede Globo, cenários elaborados e um polpudo orçamento de produção. No elenco, grandes nomes da dramaturgia nacional. O resultado, contudo, deixa a desejar. Muito carnaval para pouco conteúdo. E pior: com público garantido e audiência em alta.

Um dos representantes da nova geração do humor brasileiro é o “Pânico na TV”. A versão televisiva do programa radiofônico estreou em setembro de 2003, aos domingos, na RedeTV!. Abrigada em um horário bastante disputado, inicialmente às 18h, a trupe de Emílio Surita começou a se destacar com a sua comicidade non sense.

Perguntas indiscretas, quadros bizarros e intervenções esdrúxulas chamaram a atenção de um estrato até então marginalizado na programação dominical aberta: os jovens de classe ABC.

Desde sua criação, o trash passou a ser um dos elementos principais do “Pânico na TV”, uma atração declaradamente kitsch e grotesca. Por possuir um público altamente qualificado e formador de opinião, virou um retumbante sucesso comercial e atraiu anunciantes de diversos segmentos. Um filão de mercado que estava adormecido, concentrado nas TVs fechadas.

Atenta aos resultados do programa da RedeTV!, a Band importou da argentina os direitos de adaptação de “Custe o que Custar”, um formato que mistura jornalismo com humor. Fatos políticos, artísticos e esportivos são abordados de forma satírica e debochada.

Apresentado por Marcelo Tas, Marco Luque e Rafinha Bastos, traz matérias que envolvem pessoas públicas, como políticos, celebridades e jornalistas, com perguntas pouco discretas e inconvenientes.

O foco do “CQC” é diferente do “Pânico da TV”. O primeiro opta por um um jornalismo irreverente e temporal, o segundo prima por factóides, sem qualquer compromisso com a verdade. O interessante, neste caso, é que cada um deles adquiriu sua identidade própria e audiência cativa.

Os humorísticos, enfim, se diversificaram e enriqueceram as suas pautas. O público também contribuiu para esta evolução. O brasileiro sempre teve o costume de rir dos seus problemas. Na maioria das vezes, zombou da política sem sequer saber que os verdadeiros palhaços não estavam no Palácio, mas sim atrás das urnas.

Hoje, permanecemos rindo, mas com um pouco mais de discernimento. E as sátiras têm suas contribuições. Elas fazem com muita gente discuta e reflita sobre as questões sociais. Nem que seja para fazer graça. Parece piada, mas é verdade.

10 de out. de 2008

TV Crítica: Um olhar sobre o fundo do poço

por João Claudio Lins

Vivemos com a sensação de que no passado tudo foi melhor. O sorvete de chocolate tinha um gosto mais apurado, os jovens eram mais politizados, a televisão voltada para a família e a música com conteúdo mais inteligente.

Saudade dos bons e velhos tempos. Tolice. O brasileiro tem essa mania boba de voltar ao passado e alardear para a deturpação dos valores. Um saudosismo da época em que a disciplina era fruto de uma ditadura burra. Pura hipocrisia!

Com a abertura política, a televisão ficou mais livre e mais inteligente. No final dos anos 90, contudo, a liberdade virou libertinagem. A TV aberta, de fato, se abriu: ao faturamento e à guerra fria na busca pela preferência popular.

Em 23 de agosto de 2000, a Revista Veja publicou números da guerra pela audiência entre dois grandes apresentadores de TV em uma matéria intitulada: “A estratégia de Gugu para tornar-se o rei dos domingos”.

Noticiava que o programa do SBT, há 12 semanas, levava vantagem sobre o concorrente Global. A tática era concentrar os quadros de “primeira” linha durante o confronto com Fausto Silva.

Nesta época, os telespectadores assistiam a um turbilhão de quadros de gosto duvidoso. O SBT tinha a libidinosa "Banheira do Gugu", em que artistas de baixo calão esfregavam-se em uma disputa entre homens e mulheres em busca do maior número de sabonetes.

Era um festival de peitos e bundas. Closes quase ginecológicos preenchiam a tela. Um prato cheio para a criançada. Havia também o concurso “Carla Perez Mirim”, em que as menininhas se vestiam feito a loira do Tchan, com direito a um figurino quase obsceno e gestos nada infantis.

Mudando de canal, a Rede Globo mostrava-se disposta a abrir mão do seu cultuado padrão de qualidade, pelo menos aos domingos. Destaque para a disputa das novas integrantes do "É o Tchan", responsável pelos maiores picos do "Domingão do Faustão".

Ainda nessa época foi apresentado o "Sushi Erótico". No quadro, os atores degustavam comida japonesa sobre o corpo de modelos nuas. Outro exemplo foi o caso Latininho, quando o programa explorou a imagem de um deficiente de modo grotesco.

Um pouco mais tarde, no início desta década, essas apelações conquistavam lugar até mesmo nos dias de semana. Márcia Goldschimidt e João Kleber apresentavam seus particulares shows de horrores.

O primeiro trazia uma pauta baseada em um falso assistencialismo. Casos reais (até que alguém prove o contrário) eram levados ao palco, em uma espécie de tribuna popular.

O segundo tinha uma proposta, a princípio, humorística, condizente com o antigo slogan da emissora “uma opção de qualidade na TV”. Com o tempo – e com quadro "Teste de Fidelidade", especificamente – virou um festival de erotismo e um teatro de quinta categoria.

Hoje, a televisão está mais ponderada e, até certo ponto, regulamentada. Novelas como “Uga Uga”, por exemplo, não seriam mais liberadas para a faixa das 19h. Como reflexo de toda essa náusea televisiva, a programação expeliu, mesmo que forçosamente, algumas reações.

João Kleber e suas pegadinhas politicamente incorretas levaram a um rumoroso processo que fez a RedeTV! ser retirada do ar em São Paulo. Dispensado pela emissora, o humorista trabalha hoje em Portugal.

Márcia, após um período afastada da TV, voltou a apresentar um programa de auditório nas tardes da Band. O conteúdo está menos apelativo. A apresentadora, contudo, ainda faz um jogo cênico irritante, ainda que comedido.

Gugu Liberato, após sucessivas quedas de audiência, amplificadas pela farsa do PCC, em setembro de 2003, hoje investe em uma pauta voltada para o assistencialismo e para o entretenimento. Faustão reergueu o seu programa, com a participação de grandes nomes do elenco global, e retomou a liderança.

A TV vive um momento interessante. Aos poucos, a audiência se pulveriza e se qualifica. Emissoras, como a Rede Record, enfim perceberam que entretenimento inteligente agrega faturamento.

Baixaria pode até atrair audiência, mas não necessariamente anunciantes. Vendo por esse ângulo, chegamos ao fundo do poço e evoluímos. E como brasileiro adora felicidade por comparação, eis a verdade: já foi bem pior.

Aprendemos a vomitar tudo aquilo que nos faz mal. O ideal seria não precisar desse artifício. Logo poderemos desenvolver uma bulimia e, estando doentes, as pragas voltam, nuas e cruas, prontas para atacar os sistemas nervosos e esvaziar ainda mais a TV aberta.