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6 de ago. de 2009

Circo Eletrônico: A fantástica morte de Silvio Santos

por João Claudio Lins


Curto e grosso: e se Silvio Santos (foto / caricatura) morresse esta noite? Sim, caro leitor, Senor Abravanel é um ser humano que, como todos de sua espécie, cumpre um ciclo vital. Se Michael Jackson desapareceu, outros ícones também podem perecer de um dia para outro. Reflitam: como seria, melhor dizendo, como será (porque fatalmente vai acontecer uma hora) o ritual de passagem do 'Homem do Baú'? Qual será a postura da Rede Globo? Vale lembrar o episódio em que o apresentador foi o tema da Escola de Samba Tradição, transmitido pela emissora carioca, com profissionalismo e respeito. Como transcorrerá a rotina na sede da Anhanguera? Como serão os domingos sem Silvio Santos?

Listemos alguns fatos relevantes: Senor Abravanel é um senhor de 78 anos, um representante da melhor idade. Por mais lúcido que possa parecer, ele, assim como qualquer indivíduo da sua idade, tem limitações físicas. E que tendem a aumentar com o tempo. O fascínio pela figura que Silvio exerce, contudo, nos faz esquecer que, ali no palco, junto às colegas de trabalho, tem um homem quase octogenário.

A vitalidade de Silvio Santos é, de fato, impressionante, assim como o seu poder de virar notícia. Tudo isso preservando ao máximo a sua vida pessoal. Questionado pela revista Veja, em 2000, sobre a sua aposentadoria – e provável ausência nos negócios do Grupo, o apresentador foi taxativo: "Os executivos dizem que se eu parar o SBT regride, o Baú não vende. É tudo mentira. Os executivos falam isso porque eles ganham bônus e acham que as coisas são mais fáceis com o Silvio Santos lá, porque o Silvio Santos é um bom vendedor etc. Mas eu acho que o SBT não pode depender mais do Silvio Santos. A Globo não é sinônimo de Tarcísio Meira, Regina Duarte, Xuxa, Faustão. Da mesma forma, o SBT não tem de ser sinônimo de Silvio Santos, Hebe Camargo, Gugu ou Jackeline. O SBT tem de ser uma linha de produção. Se o artista convier ao SBT, ótimo. Se não, troca-se e não acontece nada com a emissora."

Há alguns meses, o SBT sofreu um grande desfalque, a saída de Gugu Liberato para a Record. Muita gente – inclusive eu, que publiquei uma coluna sobre o assunto – questionou sobre o tamanho do estrago que essa transferência causaria à imagem da emissora.

Eis que Silvio ressurge das cinzas e promove grandes contratações, provando a todos que a pipa do vovô ainda sobe. E que ainda há tesão pelo veículo impulsor de todos os negócios do Grupo.

Há alguns meses, o site O Fuxico, especializado em notícias de celebridades, divulgou, em 22 de maio, a morte de Silvio Santos (imagem). Segundo a notícia, o empresário teve fortes dores no peito durante a gravação o quadro Fale com a Maisa. "Levado para o Hospital Albert Einstein, ele faleceu", afirma o texto. A nota, contudo, era falsa. O motivo: invasão hacker no servidor do site.

Boatos envolvendo a vida do patrão, entretanto, não são recentes e nem exclusivos do ambiente virtual. Há algumas décadas, circulava no Brasil uma publicação sensacionalista com a manchete de que Silvio Santos estaria careca.

Outro episódio, ainda mais fatídico, foi a controversa entrevista concedida à Revista Contigo, que estampava, na capa (imagem), que o apresentador estava doente, com mais 6 anos de vida, e que o SBT havia sido vendido para a Televisa e para o Boni.

A princípio, a própria revista suspeitou que Silvio Santos estava fazendo uma galhofa. Amparada judicialmente e com a entrevista gravada, a publicação inseriu as declarações do dono do SBT ipsis literis. A 'pegadinha' teve a magnitude de uma bomba atômica e comprovou a podridão e a irresponsabilidade das 'mídias das fofocas'.

O site Cocadaboa, dias depois, afirmou ter inventado a história. Disse, ainda, ter arranjado uma pessoa com a voz similar à de Silvio Santos e ludibriado a revista Contigo. Outra sandice. Era mais um boato revertendo outro boato.

Tarde demais. A semente da discórdia estava plantada e a árvore da desinformação em plena reprodução. A cada minuto surgia uma versão nova, um desmentido, uma confirmação. "O 'monstro' saiu de nosso controle e assumiu vida própria. O falatório assumiu várias formas e acabou ficando irreconhecível até para nós." - afirmaram os editores do Cocadaboa, em matéria publicada no site. "Toda a 'mídia parasita' ajudou. Criamos o assunto descartável para entreter as vidas vazias dos coitados que passam a tarde inteira assistindo televisão".

Um fato é certo. Falar de Silvio Santos vende, gera notícias e boatos. E o mais cômico é que, por trás disso, tem um empresário fanfarrão, que alimenta muitas hipóteses e faz questão de estar da boca do povo. Talvez sua morte seja mesmo refletida de maneira apoteótica. Será a passagem do maior e mais popular profissional da comunicação brasileira.

Como será a sua vida sem o Silvio Santos? Eu mesmo não sei responder, mas tenho certeza que não vai passar batida. Uma coisa, contudo, eu tenho convicção: um dia ele vai partir desta para uma melhor. Também não duvido que peguem esta coluna e publiquem minha 'previsão'. A visão do publicitário-mãe-dinah em letras garrafais: "SILVIO SANTOS VAI MORRER". Não duvido mesmo. Tem otário pra tudo.

24 de jul. de 2009

O bê-á-bá do broadcasting: os hábitos de consumo

por João Claudio Lins

Mylena Ciribelli, apresentadora do "Esporte Fantástico", recém-estreado


Palavras de um grande diretor de comercialização e marketing, Álvaro Iahnig: "TV é hábito". Sentença que ouvi exaustivamente durante os três anos que trabalhei em uma rede de televisão. Praticamente uma lavagem cerebral. O óbvio ululante do planejamento em broadcasting. Tão evidente e intuitivo, mas que alguns executivos parecem desprezar.

O resultado do descaso: grades voadoras, programas que estréiam e são cancelados antes de completarem um mês no ar e – principalmente – um enorme desrespeito ao telespectador.

Criar e desenvolver hábitos de consumo são práticas que a Rede Globo adota – com sucesso - desde os anos 60. A conseqüência dessa sistematização é a notável fidelização de audiência que a emissora mantém, mesmo com o avanço das redes concorrentes.

Dados do Painel Nacional de Televisão do mês de junho apontam para uma confortável liderança para a Vênus Platinada, com 16,8 pontos de média diária, ante 5,7 da Record e 4,9 do SBT.

A diferença da grade da Rede Globo para suas duas principais concorrentes é justamente a previsibilidade do que vai ao ar. Ou seja, o telespectador sabe qual será a próxima atração. Já está consolidada no consciente coletivo brasileiro a disposição da programação: "Vale a Pena Ver de Novo", "Sessão da Tarde", "Malhação", 'novela das 18h', 'das 19h', "Jornal Nacional", 'novela das 21h' e linha de shows. É sempre assim, necessariamente nessa ordem. Experimente agora citar a do SBT ou a da Record.

A rede de Silvio Santos experimentou o dissabor de perder público devido às inconstâncias na programação. Uma estrutura tão volúvel que se tornou um mistério para o telespectador. O disse-que-disse tomou proporções maiores quando o patrão – em um dos seus espasmos criativos – resolveu fechar a assessoria de imprensa da casa, cerrando o contato com os formadores de opinião. Uma espécie de Ato Institucional: centralizador, ditador e insano.


Tal postura deixou não somente o público perdido, mas também os funcionários do canal. Fato que rendeu um embaraçoso episódio no principal telejornal da emissora, o "SBT Brasil": a apresentadora, que deveria anunciar a atração seguinte, ficou embasbacada, sem imaginar o que ia ao ar (veja vídeo acima). A produção tampouco. Quem salvou a cena foi o experiente Hermano Henning, que finalizou o assunto com um sorriso amarelo.

Ao que parece, Senor Abravanel aprendeu a lição. Hoje já dá para supor a programação noturna do SBT: linha de shows 1, telejornal, novela e faixa especial. Até quando a grade será mantida é uma incógnita, mas o homem do Baú dá indícios de que vai honrar a fórmula. A não ser que ele acorde com o dente doendo. Aí tudo pode mudar. Ou não. Vai saber.

No mesmo caminho está a Rede Record, cada dia mais inconstante. De acordo com a coluna Outro Canal, a emissora mudou a sua grade em São Paulo pelo menos 24 vezes num período de 57 dias. As alterações começaram em maio, quando Geraldo Luís deixou de apresentar o "Balanço Geral SP" para dar lugar à edição carioca.

Entre as reformas, houve também a ampliação do "Hoje em Dia" e mudanças no horário do "Domingo Espetacular" e do "Repórter Record" por conta da estreia de "A Fazenda", em 31 de maio. O caso mais recente foi o 'Esporte Espeta...' digo, "Esporte Fantástico" que, em sua 3ª apresentação, teve seu horário radicalmente corrompido, passando das 12h para às 08h30.

Todas essas alterações repentinas expõem insegurança e imaturidade por parte dos executivos das redes de TV. Uma aflição desenfreada por resultados financeiros e comerciais que pode afetar um importante elemento desse negócio: a credibilidade.

Diante de uma derrapada no Ibope, mais vale fazer como a Globo, que leva a temporada até o término do seu ciclo (mesmo que antecipado) para somente depois cancelá-la. A série "Tudo Novo de Novo" e a malfadada novela "Negócio da China" são alguns exemplos. O respeito, assim como nas relações pessoais, deve se refletir também profissionalmente. Essa perda pode ser irreparável.

Pensando bem, agora entendo meu ex-diretor, quando bradava incansavelmente que TV é hábito. Uma repetição salutar para todos os departamentos. O bê-á-bá da administração, que muitas vezes se perde no meio do caminho.

10 de jul. de 2009

TV Crítica: Na velocidade da internet - uma rápida análise do "Leitura Dinâmica"

por João Claudio Lins

Água e azeite: eis a relação do jornalismo da RedeTV! com o restante da programação do canal. Chega a ser paradoxal.

A mesma emissora que transmite uma grade chula, sustentada, sobretudo, por sensacionalismo, veicula também produtos exemplares.

De fato há uma certa indissolubilidade nesta estrutura. Uma postura bastante saudável, visto que essa separação preserva e salvaguarda o departamento de comunicação social da casa.

Hoje, em rede nacional, são transmitidos 4 telejornais: "RedeTV News", "É Notícia", "Good News" e as 2 edições do "Leitura Dinâmica", que apresenta os principais fatos do dia de forma rápida e concisa.

Exibida de segunda a sexta-feira, no fim de noite, a revista eletrônica da RedeTV! destaca-se por seus avançados recursos gráficos e cenários virtuais de última geração. Em pauta, notícias do Brasil e do mundo, política, números do mercado financeiro e curiosidades, acompanhados de uma dose de opinião. Tudo abordado de forma muito leve e agradável, com amplo espaço dedicado para a cultura e para o entrenimento.

O "Leitura Dinâmica" estreou em 21 de novembro de 1999, com a proposta de ser uma revista dominical. Em sua primeira fase teve a apresentação de Milton Jung. Na época, contava com a participação de Daniel Piza, que mantinha uma coluna de críticas.

A aceitação do público ao formato inovador fez com que a atração passasse a ser diária em outubro de 2001. Assim, ganhou reforços na equipe de produtores e editores e uma nova apresentadora, Rita Lisauskas. Na sequência, vieram Cláudia Barthel e, a partir de janeiro de 2004, Renata Maranhão (foto), que ocupa o posto até hoje.

Em 2008, o "Leitura Dinâmica" ganhou uma versão matutina, ancorada inicialmente por Cristina Lyra e, posteriormente, por Cláudia Barthel. Sucesso de crítica, o programa também é um êxito comercial. Configura-se como o quinto maior faturamento da RedeTV! e como a marca mais desejada da emissora, na opinião do mercado.

O título da revista eletrônica remete à proposta da leitura dinâmica, um método que consiste basicamente na assimilação das frases de forma rápida e clara, mantendo o entendimento apesar da velocidade. O formato lembra a estrutura textual da Internet, concisa e direta. Tal característica atrai, sobretudo, as classes mais privilegiadas, com acesso à tecnologia.

Na pauta, além das notícias breves, há também espaço para o entretenimento: moda, personalidades, cinema, artes, divertimento eletrônico e internet. Neste aspecto, o jornalístico inova ao abordar música alternativa e novas mídias para pessoas que entendem do assunto, sem subestimar a inteligência do telespectador.

Por isso, diferencia-se dos jornais tradicionais, que investem em pautas pasteurizadas e de "interesse comum". Para os editores do "Leitura Dinâmica", o receptor não é um "Homer Simpson". Há uma preocupação formal e estética com o conteúdo, sem melindres de se enquadrar como uma atração segmentada.

Na contra-mão dos produtos rasos da RedeTV!, o "Leitura Dinâmica" é uma escola quando o assunto é entretenimento cultural. Uma prova de que é possível desenvolver uma pauta de qualidade, sem envolver gastos exorbitantes e nem apelar para a baixaria ou para o sensacionalismo barato.

De fato, há um abismo cultural entre a divisão de jornalismo do canal e o restante da programação. Um departamento com anticorpos que resistem a uma grade doente, infectada por atrações religiosas de 5ª categoria, tele-vendas e programas de fofocas que sequer cutucam nossas mentes a alguma atividade cerebral. Pensando bem, que continue assim. Cada um no seu quadrado.

20 de jun. de 2009

TV Crítica: Nos bastidores da Anhanguera

por João Claudio Lins - Publicitário

O circo está armado. Especulações por todas as partes, um disse-que-disse generalizado, um bafafá desenfreado nos bastidores. Eis o mais novo capítulo da competição entre a Record e o SBT: a disputa pelo passe de Gugu Liberato (foto), de 50 anos.

A peleja, entretanto, vai além de uma mera questão de valores. Assume um forte valor simbólico. Trata-se de um dos pilares da emissora da Anhanguera. A possível perda pode acarretar em um sério dano institucional e representar a derrocada da identidade da emissora de Silvio Santos, que vem sofrendo de sucessivos arranhões em sua imagem.

A proposta da Record é generosa: renda mensal de R$ 3 milhões, um programa dominical e uma série de benefícios, como aumento do espaço na grade nos próximos oito anos, período do contrato. Especula-se, ainda, que a emissora de Edir Macedo oferece um espaço na Record Internacional, o canal brasileiro mais acessível no exterior.

Caso aceite, Gugu poderá ser visto em 160 países. O vínculo do apresentador com o SBT encerra em março de 2010. Caso optem por quebrar o contrato, a rescisão gira em torno de R$ 15 milhões.

Situação semelhante aconteceu em agosto de 1987. No auge do extinto “Viva a Noite”, Gugu assinou um contrato com a Rede Globo. A notícia gerou polêmica e estampou tablóides e revistas de fofoca.

Inconformado, no sábado de Carnaval de 1988, o empresário Silvio Santos foi pessoalmente à sala do dono da emissora carioca, Roberto Marinho, para pedir a permanência do apresentador no SBT.

Nesta negociação, Augusto Liberato recebeu uma proposta milionária: um salário dez vezes maior, parte da programação de domingo e ganhos com publicidade.

A relação do apresentador com Silvio Santos é antiga. Gugu começou na televisão aos quatorze anos, como assistente de produção do Domingo no Parque. Desde então, passou a ter sua imagem vinculada ao homem do Baú.

Sua passagem no SBT é marcada por altos índices no Ibope, em especial no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando emplacou sucessivas vitórias contra a Rede Globo. Ainda hoje é a maior audiência da casa.

Para o SBT, perder o apresentador implica em abrir mão de parte de sua história. Significa virar a página de uma parceria que já fez grande sucesso e que ainda gera uma excelente receita publicitária.

E o pior: fomenta ainda mais o status de um canal decadente. Segurar o moço loiro na Anhanguera é uma questão de orgulho. Talvez uma necessidade de sobrevivência.

De algum vínculo com o SBT do passado, uma rede popular, inovadora e até inconsequente, que enfrentou uma hegemonia pesada com uma programação criativa e diferenciada.

26 de mai. de 2009

TV Crítica: A Fabulosa Fábrica de Neuróticos

por João Claudio Lins
ilustração: Equipe Mundo da TV Aberta


Basta um zapping. Uma rodada entre os canais abertos para comprovar a inadequação da programação televisiva para as crianças.

No SBT, o apresentador Ratinho esquenta a audiência noturna, passando o bastão para séries enlatadas, incapazes de incitar nos pequenos qualquer tipo de reflexão aproveitável.

Na Band, a situação piora. Entre berros e matérias que apelam para uma carnificina desenfreada, Datena destila comentários violentos, ilustrados por imagens fortes e impactantes.

Trocando de emissora, na RedeTV!, é possível encontrar algo um pouco mais apropriado, mas ainda bem distante do ideal: os desenhos violentos do “TV Kids”. O problema está logo depois da sessão de animes, no apelativo “TV Fama”, com bastidores de ensaios sensuais, matérias fúteis e “flagras” sobre a vida dos “famosos”. Muda de estação.

Na Globo, aquela velha fórmula de sempre: novela 1, jornal, novela 2. São folhetins um pouco mais leves, mas que trazem mensagens adultas e assuntos polêmicos.

Na Record, um respiro: o antiquíssimo “Pica Pau”, seguido de outros produtos jornalísticos. Filtrando a grade das principais emissoras comerciais, das 17h às 20h, eis o resultado do que poderia ser assistido pela garotada: um cartoon da década de 50 e desenhos japoneses.

Desligar a televisão e propor outras atividades pode ser uma boa oportunidade de distrair as crianças no início da noite. No entanto, estamos no Brasil, um país subdesenvolvido, repleto de proletariados que trabalham muito além da carga horária ideal. Uma nação que cultua a babá eletrônica e que vê nela uma forma eficaz de ocupar a mente dos pequenos ociosos.

Nas redes abertas, as únicas alternativas viáveis de oferecer entretenimento de qualidade são as TV’s Educativas, muitas vezes escondidas em sinais UHF. De fato, os canais comerciais vivem de faturamento.

Investir em um público segmentado, no horário noturno, é arriscado e pode comprometer as vendas. Algumas dessas emissoras, contudo, já apostaram em dramaturgia para as crianças. Experiências ousadas que obtiveram boa audiência e excelente faturamento.
  • Os primórdios da dramaturgia infantil:

A televisão ainda engatinhava. Algumas poucas telenovelas já haviam sido exibidas quando a TV Tupi lançou, baseada na obra homônima do escritor alemão Hans Erich Seuberlich, “Angelika”, voltada especialmente ao segmento infantil.

O folhetim, exibido em 1959, era exibido ao vivo, em preto e branco. Como não havia videoteipe, não restaram registros desta obra. Apenas fotos e lembranças de uma produção ingênua, bem caprichada para a época.

  • As produções recentes: as novelas musicais de Cris Morena adaptadas no Brasil:

Um orfanato, um triângulo amoroso, uma governanta mal amada e crianças à mercê da caridade alheia: os ingredientes perfeitos para um dramalhão repleto de clichês. Ledo engano.

Essa fórmula, criada por Cris Morena (foto) em 1995, atravessou a Argentina, sua nação de origem, e conquistou diversos países, incluindo aqueles com forte vocação em dramaturgia, como o Brasil e o México.

A trama, batizada de “Chiquititas”, teve a sua versão brasileira produzida entre 1997 e 2000, com cerca de 700 capítulos, exibidos com algumas pequenas pausas durante as férias.

O grande destaque da trama exibida pelo SBT, contudo, não foi propriamente o seu enredo, mas sim os seus interessantes musicais, com temas lúdicos e rimas fáceis. O formato musicado de Morena obteve enorme aceitação. Empatia que gerou uma farta receita publicitária, com o lançamento de bonecos, revistas, peças de teatro, CDs e muitos outros badulaques com a marca da novela.

A mesma autora teve outra trama bastante popular no Brasil, desta vez na Band: “Floribella”. Voltado para todas as idades, o folhetim teve 2 temporadas, aproximadamente 340 capítulos e 2 álbuns com a trilha sonora original.

O recurso do videoclipe, assim como em “Chiquititas”, foi amplamente utilizado. A linguagem jovem e o visual multicolorido inspiraram muitas crianças e pré-adolescentes, que tinham à disposição dezenas de produtos licenciados.

  • A dramaturgia infantil brasileira:

No Brasil, várias novelas foram direcionadas para o público infanto-juvenil. Algumas delas contiveram apenas núcleos com a garotada, enquanto que outras assumiram completamente essa segmentação, com histórias criativas e alguns personagens fantasiosos. Destaque para o “Meu Pé de Laranja Lima” (Band) e “Caça Talentos” (Globo).

O trunfo da dramaturgia infantil brasileira, entretanto, está nos seriados, com forte destaque para a TV Cultura, ganhadora de diversos prêmios por suas produções. A trilogia “Rá-Tim-Bum”, do escritor e diretor Flávio de Souza, foi sucesso de crítica e já garante o seu status de “clássico”.

Outros títulos merecedores de aplausos: “O Menino Maluquinho”, “Cocoricó” e “Turma do Pererê”. Até mesmo as TV’s comerciais já tiveram seus dias de glória, como o “Sítio do Picapau Amarelo”, “Vila Sézamo”, “Shazan, Xerife & Cia” (foto), além dos programas especiais, como os inesquecíveis “Pluct Plact Zum” e “A Arca de Noé”.

  • O diagnóstico:

A TV aberta amarga uma das piores safras de atrações infantis da história. Destaque para o lastimável desempenho da pequena Maisa no “Programa Silvio Santos”. A menina tinha sua intimidade invadida todo domingo e frequentemente era ridicularizada no palco. Uma exposição desnecessária que pode trazer sérias consequências para a garota.

Diante deste cenário, fica a pergunta: existe diversão saudável na TV aberta? A resposta é afirmativa. Basta sintonizar as redes públicas. Nelas, é possível encontrar opções inteligentes de entretenimento que podem contribuir efetivamente para o desenvolvimento das crianças. Outra boa alternativa são os canais pagos.

O lamentável é que, aqui no Brasil, o acesso aos bons serviços é cobrado. Em outras palavras: filho de pobre tem que se contentar com as imbecilidades da Xuxa. Deve enfrentar as filas do SUS quando ficar doente e se submeter à educação precária da rede pública. Essa é a realidade do nosso país. Os humildes são nutridos pela ignorância e pelo total esvaziamento intelectual, desde muito cedo.

A televisão, mais do que entreter, passou a cumprir um caráter educacional. Função que nunca foi dela. Assim, em vez de contribuir na formação dos indivíduos, a TV deforma esse processo. Quer saber mais? Pergunte para a Maisa.

14 de mai. de 2009

TV Crítica: O Diário Secreto do "Superpop"

por João Claudio Lins

A nova música de Rita Cadilac, o lançamento do filme pornô de Julia Paes, o mais recente hit de MC Créu, as confissões de Thamny Gretchen e a banheira erótica da Mulher Moranguinho: estas são algumas atrações do "Superpop", exibido de segunda a quinta-feira por Luciana Gimenez.

Há quase 10 anos no ar, o programa aposta no grotesco e no sensacionalismo, com temas – e factóides – polêmicos, geralmente acompanhados de um ar kitsch de jornalismo investigativo. O ambiente perfeito para sub-celebridades armarem os seus barracos e discutirem futilidades, que, na maioria das vezes, não levam ninguém a lugar algum.

Em sua primeira fase, ancorada por Adriane Galisteu, o "Superpop" teve uma roupagem jovem, com tons explicitamente inspirados na cultura pop. O DJ Zé Pedro, com seu vestuário extravagante compunha um mix bastante divertido.

Mesmo com um orçamento enxuto, a pauta era criativa e variada, atraindo, segundo pesquisas daquele ano, mulheres entre 25 e 40 anos e médias em torno dos 3 pontos, significativos para uma emissora iniciante.

10 meses depois, Galisteu, sem aviso prévio, trocou a RedeTV! pela Record. O golpe foi tão imprevisto que uma solução de emergência teve de ser arquitetada. Assim, Otávio Mesquita e Fabiana Saba foram escolhidos para cobrir o buraco.

De mãos atadas, os diretores sentenciaram que a escolha da substituta de Adriane seria anunciada por votação direta dos telespectadores. Além de Luciana Gimenez, várias opções foram cogitadas, como Monique Evans, Astrid Fontenelle, Susana Werner, Rita Lee, Luana Piovani e Cátia Fonseca.

Apesar de não ter sido a candidata mais votada pelo público - que elegeu Monique Evans como preferida - Luciana foi a felizarda "por se encaixar mais com o perfil do programa". Logo em sua estréia, a ex-modelo foi implacavelmente achincalhada por causa dos deslizes que cometia contra a língua portuguesa, fruto de doze anos de vivência no exterior.

Em entrevista para a Revista TPM, a apresentadora mostrou ter superado todas as críticas: “Eu mudei do Brasil com 16 anos e perdi a fluência. As pessoas que ‘jogaram pedra na Geni’, hoje se sentem culpadas e têm um carinho extra por mim” - completa.

Questionada sobre a qualidade dos temas exibidos no palco, Luciana responde com ironia. Diz não se tratar de baixaria, mas de conflito social. Relembra, ainda, as importantes entrevistas e matérias que realizou. Destaques para Fernando Collor, Britney Spears, Bryan Adams, Mick Jagger e Marta Suplicy.

Defende também já ter privilegiado pautas de interesse público, como parto na água, HPV e câncer de mama. Esses assuntos, contudo, não rendem bons índices no Ibope, segundo o parecer da apresentadora.

A receita da “popularidade” é previsível: sensacionalismo barato, manchetes chamativas e pautas extravagantes. Para acalorar o espetáculo, participam modelos, parentes de famosos, ex-'BBB's', garotas de programa, médicos e especialistas, discutindo, juntos, temas polêmicos, como homossexualidade, prostituição, cirurgia plástica e religião. Às vezes, o debate toma rumos inadequados, com opiniões de quem pouco ou nada sabe do que está falando. Patético!

Outra característica reincidente é a predileção por certos convidados, como Thammy Gretchen. A filha da rainha do rebolado sempre entra em cena para abordar a sua orientação sexual: desabafo, desculpas à mãe, filme pornô gay, desejos e relacionamentos.

Com intuito de apimentar a contenda, a produção escala alguns “antagonistas”, que se prestam a espezinhar a moça, com comentários homofóbicos. Arma-se, então, um barraco esdrúxulo, com direito à gritaria da platéia e às caras de bocas de Gimenez.

O programa conta ainda com vários outros quadros, como “O Diário Secreto”, um rascunho do “Arquivo Confidencial” do Faustão. Só que, em vez de Regina Duarte no papel de homenageada, o centro das atenções é Bruna Surfistinha.

Há também os desfiles de moda, às quartas-feiras, em que moças desfilam lingeries no palco. A união perfeita do merchandising com o apelo erótico. Em seguida, entra Ronaldo Ésper, com a sua avaliação da roupa dos famosos. O estilista, depois do caso do roubo de vasos no cemitério, ganhou um pouco de senso do ridículo, mas não o suficiente para impedi-lo de dançar suas músicas.

Por fim, tem o insuportável “Popparazo”, um rapaz que persegue as celebridades com a sua câmera. Nas imagens, flagras imperdíveis, como a Gretchen comendo pastel de carne, Vivi Fernandes tomando caldo de cana com um “suposto affair”, e outras pérolas do gênero.

Na tentativa de elevar o nível da atração, a RedeTV! buscou promover, em dias específicos, pautas jornalísticas e investigativas, como "Na Mira da Mídia”, um quadro que mostra apenas os casos mais conhecidos e batidos da semana.

Destaque para a entrevista de Alexandre Jatobá, pai de Anna Carolina Jatobá, entrevistado sobre o suposto crime que a filha teria cometido. Outra edição controvérsia foi protagonizada pelos sargentos Laci Marinho de Araújo e Fernando de Alcântara Figueiredo. O interrogatório se transformou em um show, quando ao vivo, foi informada a prisão de Araújo pelo Exército.

Esta postura mais séria do "Superpop", contudo, não cobriu com sucesso nem a proposta inicial de entretenimento, tampouco a cobertura de informações jornalísticas. Assim, a direção resgatou, sem grandes inovações, um velho formato, que fez muito sucesso em meados da década de 90: a “banheira”.

Em vez da água, todavia, apostaram em um novo ingrediente: o chantili. Tudo para justificar a presença da insinuante Mulher Moranguinho, incumbida de impedir com que os rapazes recolham as frutas. Um verdadeiro show pornô, com picantes closes ginecológicos. O mesmo esquema do falecido quadro do Gugu, mas em um horário bem mais permissivo.

O mais curioso é que o "Superpop" não é tão povão como sugere seu nome. Seu perfil é altamente qualificado, assistido diariamente por cerca de 250 mil telespectadores (só na Grande São Paulo), de classes predominantemente A e B, segundo o Ibope.

A audiência também é interessante, uma das maiores da RedeTV!. É o típico programa que as pessoas escondem acompanhar. Muitas delas se dizem abduzidas no momento do zapping. Pura balela! As madames também apreciam uma boa baixaria na TV, desde que salvaguardadas no silêncio de suas salas. O trash seduz. Quem nunca foi atraído que atire a primeira pedra.

25 de abr. de 2009

TV Crítica: Mais casos, menos famílias

por João Claudio Lins

Christina Rocha (foto) é quem vai comandar o novo “Casos de Família”

O popularesco está de volta. Na tentativa de reverter o esvaziamento da audiência, Silvio Santos recorre à velha fórmula que consagrou o SBT: a exploração do apelo popular. Estilo que posicionou a emissora no mercado e, em pouco tempo, a elevou à categoria de vice-líder.

A mesma diferenciação que espantou, por muito tempo, anunciantes de peso, fazendo a Rede operar no vermelho. Numa ofensiva contra o crescimento da Record, o canal ressuscita atrações que fizeram sucesso no passado: o “Programa do Ratinho”, o “Show da Gente” e o “Casos de Família”, o objeto desta análise.

Uma estratégia comodista, preguiçosa e rançosa. A mesma que estimulou a estreia das malfadadas releituras de “Aqui Agora”, “Viva a Noite” e “Fantasia”. Apertem os cintos, o Patrão voltou no tempo e o piloto sumiu.

A partir do dia 04 de maio, diariamente, das 16h30 às 17h30, o SBT vai transmitir o novo “Casos de Família”, bem diferente da estrutura assistencial que a competente jornalista Regina Volpato levava ao ar. A ordem agora é chocar, inflamar discussões, armar o barraco. Saem os casos humanos narrados de forma civilizada, entram as gritarias. É o retorno de Christina Rocha, que acaba de sofrer uma verdadeira "venezuelização", já que a proposta é ser o mais fiel possível ao formato adquirido pela produtora Venezuelana.

Depois que Volpato abandonou o programa, desgostosa com as imposições que lhe foram feitas, o SBT partiu em busca de uma substituta que se encaixasse ao novo perfil. Com a saída de Regina, a emissora produziu pilotos com Olga Bongiovanni, Claudete Troiano, Márcia Dutra e Christina Rocha. A palavra final, como sempre, foi a de Silvio Santos, que elegeu a ex-apresentadora do “Aqui Agora” para ancorar a atração.

Historicamente, o programa apresenta perfil feminino, com predomínio das classes ABC e faixa etária acima de 25 anos. Um segmento bastante atrativo para o mercado publicitário. Estes dados, contudo, são referentes aos tempos de Volpato, que mediou a atração de maio de 2004 até março de 2009.

Desde que estreou no comando de “Casos de Família”, Regina rompeu preconceitos e provou que é possível manter a elegância num “telebarraco” e não explorar o drama de pessoas humildes, que se prestam a contar na TV o que deveria ficar restrito às suas casas.

A ordem agora, contudo, é seguir o caminho inverso: provocar escândalos, chamar atenção e atrair audiência, seja ela qual for. E o antigo telespectador? Será atraído pela nova proposta? E os anunciantes? Eles vão querer associar suas marcas a este tipo de conteúdo?

Ao que parece, o SBT está resgatando sua imagem popularesca, baseada numa programação de fácil aceitação pelo público. A mesma que lançou humorísticos quentes e shows intimistas, como "Reapertura", "Moacyr Franco Show", "O Homem do Sapato Branco", e o "Povo na TV", no início dos anos 80. Com tal direcionamento, a Rede alcançou rapidamente uma posição de destaque em audiência, chegando a uma participação de 24% e 30% no primeiro e segundo ano de operação.

Esses resultados estimularam uma mudança de postura. De 1983 a 1987, a emissora investiu em programas populares, mas já aliados a uma preocupação com a qualidade. Estratégia intensificada entre 1988 e 1990, com a contratação de Boris Casoy, Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega. Nesse período estrearam "Aqui Agora", "Programa Livre", "Jô Onze e Meia”, "A Praça é Nossa" e "Cinema em Casa".

Com uma grade qualitativa, contudo, a Rede experimentou um decréscimo na sua participação em audiência, caindo para 22%. Em compensação, pulou para 15% de share publicitário. Prova de que os números do IBOPE, a comercialização e o prestígio nem sempre andam juntos.

Em resposta à ascensão comercial da Record, a partir de 2004, o SBT tentou re-qualificar sua grade com maciços investimentos no jornalismo e na dramaturgia. Aos poucos, a emissora sofisticou seu casting e perdeu parte do apelo popular. Tal atitude, todavia, veio acompanhada de uma substancial queda na audiência.

Se antes aquele estilo pop do SBT tinha um ar cult, hoje envelheceu. Tornou-se apenas brega – o que explica em parte o esvaziamento da identidade da emissora. A estreia do novo “Casos de Família” é um desses exemplos desesperados de voltar no tempo.

Troca o perfil, substitui a apresentadora. Muda também o telespectador qualificado, que migra para outras propostas mais interessantes – e cada dia mais escassas na TV aberta. Só falta contratarem o João Kleber para acelerar a metástase da grade vespertina, já convalescente desde o regresso de Márcia Goldschmidt.

É o mundo cão ressurgindo das cinzas, mais forte do que nunca.

9 de abr. de 2009

TV Crítica: "Big Brother Brasil", a voz dos excluídos

por João Claudio Lins

Esta semana, o Brasil conheceu o mais novo vencedor do "Big Brother Brasil": Max Porto (foto). Com apertados 34,85% dos votos, o carioca venceu Priscila e Francine e conquistou o prêmio máximo do programa.

De quebra, ainda terá seus 15 minutos de fama que, se bem administrados, podem render mais alguns rendimentos. Final feliz para o bem, punição para o mal (se é que esta edição teve algum vilão de fato) e a resolução de uma trama de conflitos que atraiu os sentimentos de compaixão e justiça em mais de 40 milhões de espectadores-consumidores.

Enfim, os brasileiros podem começar o ano e tocar suas vidinhas adiante. A novela acabou e, com ela, todos os argumentos de luta, usados pelos participantes do jogo, para transpor as barreiras da vida e das armadilhas de seus adversários. O povo fez a sua parte. Endossou um investimento milionário que não vai levar ninguém a lugar algum.

O formato do "Big Brother" não por acaso tem os ingredientes de um melodrama. Os aspirantes à fama são escolhidos entre milhares de candidatos, por meio de uma seleção direcionada, pressupondo certos encadeamentos, já que eles foram eleitos segundo características físicas e emocionais preestabelecidas.

Lá estão a mocinha, a gostosa, o bonitão, a chorona, os vilões e, como não poderia deixar de ser, os representantes das minorias.

Durante 9 edições, os telespectadores assistiram a verdadeiras “tramas comportamentais”, com a real possibilidade de interagir com o enredo, punindo ou premiando a ação dos “brothers”, através de atividades programadas, como o “Big Boss” e a “votação popular”.

Ao longo dos paredões, os participantes foram assumindo seus personagens. Fato curioso é a predileção do público brasileiro pelas "minorias sociais". No BBB observa-se que os candidatos mais populares repetem um padrão de identidade associado a arquétipos de personalidade.

Listemos os vencedores de todas as temporadas: o ignorante boa praça (Bam Bam), o rústico (Rodrigo Caubói), o caipira influente (Dhomini), a babá de bom coração (Cida), o intelectual gay (Jean), a mãe da menina com necessidades especiais (Mara), o herói (Diego Alemão), o feirante fiel (Rafinha) e, finalmente, o artista sincero (Max).

Margaret e Pearson (2001)¹ definiram 12 arquétipos que se expressam na vida das pessoas. Alguns deles são facilmente identificados nos participantes do programa. São eles: o prestativo (Mara, "BBB 6"); o governante (Jean Willis, "BBB 5"); o bobo da corte (Fran, "BBB 9"); o cara comum (Buba, "BBB 4"); o amante (Thyrso, "BBB 2"); o herói (Alemão, "BBB 7"), o fora-da-lei (Tina, "BBB 2"), o mago (Monge, "BBB 6"), o inocente (Bam Bam, "BBB 1"), o criador (Iris, Alemão e Fani, "BBB 7"); o explorador (Doutor Rogério, "BBB 5") e, por fim, o sábio (Jean Massumi, "BBB 3").

No "Big Brother Brasil 5", Jean Willis inflamou o programa ao se declarar gay e denunciar homofobia dentro da casa. Na condição de "minoria oprimida", caiu nas graças do público e da crítica.

O caminho adotado pelo psiquiatra Marcelo, na 8ª edição do reality, contudo, foi diferente. De forma consciente ou não, ele buscou explorar a roupagem sexual mais adequada para ser aceito por seus pares.

Ambas personalidades se destacaram na competição. O escritor baiano faturou a premiação da 5ª temporada, vencendo, inclusive, Grazi Massafera. Um avanço e tanto para um país ainda homofóbico e preconceituoso.

Fazer parte da minoria, contudo, não é fator determinante para o jogo. Esta edição do "BBB", por exemplo, contou com 2 “brothers” da 3ª idade: Naiá (61) e Norberto (63). Ambos foram eliminados pelo público, com 52% e 55% dos votos, respectivamente.

No Brasil, ao contrário das versões internacionais, o "Big Brother" costuma separar dois sub-grupos de personalidades: os “marginalizados” e os "aspirantes à fama", com seus biotipos esculturais e certo grau de arrogância ou isolamento.

A seleção destes "excluídos", além do jogo cênico que proporcionam, tem uma explicação comercial muito clara: gera identificação com um público consumidor em franca expansão. As classes C, D e E, enfim, viram-se representadas na tela da Rede Globo. Desta vez no papel de herói da vida real. Com isso, esse estrato populacional passou a interagir com o programa, na esperança de compensar seus personagens favoritos da pobreza em que viveram ou pela vida difícil que tiveram.

Vitória dos excluídos, da esperança e da demagogia. O "Big Brother", mais que um microcosmo da realidade brasileira, tornou-se uma reação global a um ato de preconceito que nos revela que as minorias estão se dando conta de seu poder.

¹ MARK & PEARSON (2001). O Herói e o Fora-da-Lei: como construir marcasextraordinárias usando o poder dos arquétipos. Cultrix, São Paulo.

17 de mar. de 2009

TV Crítica: Novos hábitos: a mudança no consumo das telenovelas brasileiras

SBT voltou a investir em telenovelas no ano passado, depois de um período parado.

por João Claudio Lins

Demorou mas aconteceu. O consumo da telenovela brasileira, tão cultuada pelos quatro cantos do mundo, enfim se abriu para o mercado interno. O comportamento da audiência se diferenciou, dando espaço para produções segmentadas e novos formatos.

A dramaturgia nacional evoluiu, ganhou novos personagens e até mesmo uma nova vilã, disposta a tudo para roubar uma fatia mais polpuda do mercado e desbancar uma liderança que perdura por décadas. Desenlaces surpreendentes, traições e disputas: a novela das novelas chega ao seu clímax com a promessa de muitas emoções para os próximos capítulos.
  • Os personagens:

Vamos aos protagonistas. No papel principal, destaca-se a “heroína”, a Rede Globo, detentora de 3 novelas inéditas, uma reprise e um seriado adolescente. Uma emissora de forte apelo popular e reconhecimento por suas obras.

No lado oposto, a antagonista Rede Record ataca com 2 produções em curso e 1 repeteco nas tardes. Completando o triângulo, no núcleo cômico, encontra-se o SBT que, de modo quase que patético, transmite “Revelação”, escrita pela mulher do patrão. Há ainda os figurantes, que exibem melodramas importados, como a CNT, mas eles raramente aparecem no contexto.

  • A trama:

Flashback para ambientar a história e a rivalidade dos protagonistas: 1999. Tínhamos uma Rede Globo prepotente e invicta, com suas novelas em alta, faturando muito bem, com algumas ameaças do SBT, que frequentemente emplacava algum “furacão mexicano”. Na Record, a dramaturgia nacional engatinhava, com produções baratas de retorno minguado.

  • A reviravolta:

No início dos anos 2000, o SBT ousou em firmar uma parceria com uma das maiores exportadoras de conteúdo do mundo – a emissora mexicana Televisa. Deste acordo, que durou 8 anos de co-produções, surgiram alguns destaques, como “Pícara Sonhadora”, “Marisol” e “Esmeralda” que, embora tivessem textos sofríveis, garantiram médias significativas.

Neste tempo, o SBT chegou a exibir no mesmo dia até 6 novelas da Televisa (inéditas e reprises). Cômico se não fosse trágico.

  • O clímax:

A ameaça à hegemonia das produções globais, contudo, não estava no SBT, mas sim na Rede Record, que a partir de 2004 passou a se utilizar da mesma fórmula da emissora líder. Desde que injetou cifras miliomárias em sua programação, a rede da Barra Funda entrou na dramaturgia disposta a investir pesado em elenco, em texto e em produção.

O primeiro golpe foi apostar na ousadia: estreou em um domingo a telenovela “Metamorphoses”, em parceria com a produtora Casablanca. O resultado foi desastroso. Um enredo que se perdeu pelo caminho, obtendo índices irrisórios.

A grande tacada, entretanto, viria logo a seguir, com a estréia do remake de “A Escrava Isaura”, que rendeu média de 13 pontos e picos de 25 em sua reta final.

  • O núcleo cômico:

Com o sucesso de “A Escrava Isaura”, a Rede Record engatou vários sucessos e investiu em novos horários e temas. Eis que surge o inusitado: uma trama romântica que tem como pano de fundo uma história que envolve mutantes.

Com índices animadores, a Record engata uma 2ª temporada, com um enredo que beira o absurdo, concorrendo direto com o principal produto da sua rival. Desde então, a novela global pena para chegar aos 40 pontos de audiência na faixa das 21h (sendo que a meta é 45).

Neste cenário de guerrilha entra em cena o atrapalhado SBT, que resolve investir na dramaturgia nacional e contrata Íris Abravanel, a esposa de Silvio Santos, para escrever uma trama recheada de improviso, amadorismo, pieguice e escracho, apesar de nada disso constar na sinopse original.

  • A análise por trás do enredo:

Esse melodrama dos bastidores das novelas é uma obra aberta. Portanto não há como supor o desfecho dos protagonistas. Pode ser que venha um furacão e elimine metade dos personagens e mude todo enredo, assim como fez Janete Clair em “Anastácia, a mulher sem destino”, em 1976.

De repente, a antagonista pode vencer e se tornar absoluta com suas tramas. Ou mesmo ser esmagada pela líder. Há ainda a remota possibilidade de o núcleo cômico, encabeçado pelo SBT, se destacar com alguma palhaçada, “arma secreta” ou “espasmo criativo” do patrão.

A diminuição dos índices de audiência – ou a pulverização deles, melhor dizendo – não indica que a dramaturgia brasileira esteja em crise. Mostra que o telespectador está aberto a novas propostas e que o mercado televisivo, mesmo em meio a uma crise mundial, ainda está aquecido.

Com isso todos ganham: o mercado anunciante, a equipe de produção, os investidores e o público. Final feliz. Até que alguém inove mais uma vez e invista em outros formatos mais rentáveis. Mas aí já é enredo para uma outra história.

26 de dez. de 2008

"Especial Chaves V": Conclusão do artigo "Chaves: um esteriótipo da latinidade mexicana"

por João Claudio Lins

Último capítulo do artigo “Chaves: um estereótipo da latinidade mexicana”, escrito por João Claudio Lins.

  • Conclusão

Dono de um humor neocantinflaniano, Chesperito é a forma mais sublime de traduzir a simplicidade de um circo. Bolaños é um comediante sensível, que faz do humor sua poesia; da representação de sua nação, seu cenário; seus personagens, memoráveis. Quem enxerga mais do que a superficialidade de "El Chavo del Ocho" pode perceber a riqueza de seu universo circense.

"Chaves" representa um estereótipo sócio-cultural do México e, por conseguinte, da América Latina. E é por esse motivo que há tanta empatia com os países subdesenvolvidos. A utilização dessas caricaturas, segundo o próprio autor, é uma forma de se identificar com o público do seriado.

A contribuição de "Chaves" para construção dessa identidade, portanto, é meramente ilustrativa e não cumpre o papel de denúncia. Bolaños foi taxativo ao afirmar que a função do humorístico não é desenvolver uma crítica social, mas sim entreter. Para ele, Chaves é apenas um garoto pobre que passa fome e vive em lugar pobre. Para se inspirar no cenário da vila, bastou olhar em volta.

A crítica do seriado surgiu “sem querer querendo”. É quase impossível representar um povo sem tocar em valores ou aspectos sociais. "Chaves" faz sucesso por tentar reproduzir, mesmo que de forma caricatural, aquilo que realmente é.

Se Dona Florinda fosse bela, Chaves rico, Sr. Barriga vilão e professor Girafales herói, o seriado perderia o sentido. É mais fácil nos identificarmos com a realidade de Chaves do que com o universo fictício Super-Homem.

Em "El Chavo de Ocho", os telespectadores se vêem e, de certa forma, orgulham-se disso. É como afirmar que o Brasil é o país do carnaval. De fato, nossa nação não se resume ao samba, mas nós somos identificados dessa maneira no exterior. Recebemos tal estereótipo que, de certa forma, nos dá orgulho e nos diferencia de outras culturas.

A carência técnica contida no humorístico tornou-se um saboroso tempero. A feiúra e a miséria, no espaço da carnavalização do seriado, tornam-se engraçadas e caricatas. Um divertido circo pobre, repleto de palhaços. De Hollywood, fica a referência do humor pastelão. Esteticamente, "Chaves" subverte o modelo norte-americano e, ainda assim, encanta pela simplicidade. A vitória do conteúdo sobre a forma.

A carnavalização e a construção de uma identificação com o México subdesenvolvido revisita um humor de raiz, ora escrachado, ora poético. Assim é "El Chavo del Ocho", um programa que sabe rir da pobreza sem ofender, que toca os corações sem fazer chorar.

  • Referências do artigo "Chaves: um esteriótipo da latinidade mexicana":
ECO, Umberto. Sobre espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
GAHAGAN, Judy. Comportamento Interpessal e de Grupo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980 KASHNER, Pablo. Chaves de um sucesso. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2006
SOARES, Ana Carolina. O astuto homem do barril. Contigo. São Paulo, 19/08/2004
VALLADARES, Ricardo. Entrevista com Roberto Bolaños. Veja: São Paulo, 20 out, 1999.
DOMINGUES, Fernando Buen Abad. Laberinto em el Valle televisivo. Madrid: Ediciones Laberinto, 2002.
VALDIZÁN, Rafael. El Comercio. Disponível em: . Acesso em: 16 nov. 2005.
YGLESIAS, Maria Perez. El Chavo del Occho: por que los aman los niños? Revista Herência: Editorial de la Universidad de Costa Rica (UCR), set.1990.

  • Conheça o autor:

João Claudio Lins é Publicitário, Especialista em Propaganda e Marketing e em Novas Mídias: Rádio e Televisão.

Mais matérias em seu blog Circo Eletrônico.

Leia as 5 partes do especial "Chaves: um esteriótipo da latinidade mexicana"

25 de dez. de 2008

"Especial Chaves IV": O Carnaval e a Pobreza

por João Claudio Lins
  • Resumo

4º capítulo do artigo “Chaves: um estereótipo da latinidade mexicana”, escrito por João Claudio Lins. Examina-se a forma e o conteúdo do humorístico, que carnavaliza a pobreza de uma comunidade e aposta na produção de um humor circense.

  • O Carnaval e a Pobreza

Uma das possíveis razões do sucesso de "Chaves" é sua identificação com a cultura dos países latino-americanos, não somente pelos parâmetros econômicos, mas também sociais. Tal qual Charles Chaplin, Roberto Bolaños criou uma atmosfera carnavalizada no seriado. Produziu um humor circense, teatral e baseado na pobreza. Com isso, uniu a falta de técnica ao conteúdo do programa.

É no espaço da carnavalização que se encontra um dos elementos mais interessantes do seriado mexicano. "Chaves" é, em grande parte, uma carnavalização de contextos e papéis sociais e também de produtos e propostas estéticas. A começar pelos personagens. Crianças são interpretadas por adultos.

Os maduros, por vezes, têm atitudes infantilizadas. O mesmo autor interpreta dois personagens, adulto e criança – como o caso de Florinda Meza, que vive Dona Florinda e Pópis, e Maria Antonieta de Las Nieves, que interpreta Dona Neves e Chiquinha.

A carnavalização também transparece a forma como a pobreza é representada. Em vez de utilizar o cortiço para um fim dramático, Bolaños utiliza o ambiente para sua ambigüidade paródica. A pobreza, que é triste, vira pretexto para o humor, que representa a alegria. “Bolaños faz com que a fome, que poderia ser pretexto para algo lamurioso ou panfletário, seja trabalhada sob uma ótica circense, para fazer rir” (KASCHNER, 2006, p.59).

O carnaval pode ser um dos motivos de aproximação entre o contexto do seriado com o cenário brasileiro. No humorístico, a cronologia pára, adultos são crianças e dívidas são perdoadas. Assim é o nosso carnaval.

Durante poucos dias, ricos e miseráveis são iguais. Os morros enfeitam-se de lantejoulas e a pobreza vira beleza. Por tempos, dirigentes e operários, empregados e desempregados se esquecem da economia, da crise, dos problemas e uma nação cheia percalços vira o país do carnaval.

Outro argumento que pode justificar a empatia do público com o humorístico é a justaposição do enredo à técnica. Personagens feios, cenários mal acabados, iluminação precária: "Chaves" é, definitivamente, um programa fora dos padrões convencionais no que tange à estética.

O conteúdo do seriado, apesar de contar com um roteiro inteligente e bem costurado, não pode ser considerado inovador. Ele não traz grandes novidades. Ao contrário, na vila do "Chaves", pouco ou quase nada acontece. Seu humor baseia-se no grotesco, tanto pelo figurino, quanto pelas previsíveis ações dos personagens.

A repetição, inclusive, pode ser encarada como um dos temperos do humorístico. Os telespectadores esperam as piadas e, ainda assim, riem delas. E isso é reconfortante para quem assiste.

Eco, em "Sobre os Espelhos e Outros Ensaios", explica esse comportamento na suposição da “necessidade do leitor das séries consolar-se tanto com o retorno do idêntico, mesmo que mascarado, quanto com sua capacidade de prever o desenrolar da história, saboreando assim a possibilidade efetiva do retorno daquilo que ele espera acontecer.” (ECO 1991, p.56).

No enredo, é possível observar claramente situações e diálogos que se repetem: a pancada que o Sr. Barriga recebe do garoto Chaves assim que entra na Vila, a bofetada que Sr. Madruga leva de Dona Florinda – geralmente por um ruído na comunicação -, o clima melodramático que se instaura no encontro de Florinda e Girafales, entre outros.

  • Referências deste capítulo:

ECO, Umberto. Sobre espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
KASHNER, Pablo. Chaves de um sucesso. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2006


  • No último capítulo (amanhã, 26/12, às 19h): Conclusão do artigo "Chaves: um esteriótipo da latinidade mexicana".

24 de dez. de 2008

"Especial Chaves III": A negação e a afirmação da estética norte-americana

por João Claudio Lins

Resumo


3º capítulo do artigo “Chaves: um estereótipo da latinidade mexicana”, escrito por João Cláudio Lins. Trata-se de uma análise, em 5 partes, do programa "Chaves", exibido no Brasil há 20 anos.

Examina-se a forma e o conteúdo do humorístico, que carnavaliza a pobreza de uma comunidade e aposta na produção de um humor circense. Ao fim, faz-se uma comparação formal e narrativa do formato, a partir da afirmação e negação da estética norte-americana.
  • A negação e a afirmação da estética norte-americana

O programa humorístico "Chaves", exibido no Brasil há mais de 20 anos, realiza algumas inversões na estética dos seriados hollywoodianos. O glamour norte-americano parece ter sido desprezado nos roteiros cômicos de Chespirito. A tendência de enaltecer o belo, a ascensão social e a riqueza foi ignorada, dando lugar a cenários enjambrados, pobres, feios e escuros.

No seriado não há donzela, tampouco moças bonitas. Não há galãs também. Enfim, a beleza estética parece estar em segundo plano no humorístico. A cronologia de "Chaves" é confusa, recheada trechos do cotidiano, sem ligação entre um capítulo e outro.

Há, contudo, uma marcada apologia à igualdade feminina, algo bem distante do estereótipo da mocinha indefesa. Na vila, todas as mulheres são independentes. Nenhuma delas está atrelada ao marido ou cônjuge. Nota-se, de modo bastante claro que, tanto as moças adultas, como Dona Florinda e Dona Clotilde, quanto as meninas, como a Chiquinha, exercem poder de influência sobre os homens. E ainda são mais inteligentes e perspicazes.

Diferentemente dos heróis simbólicos, que unem à sua bondade a verdade e a beleza, os personagens do seriado "Chaves" são pessoas marginalizadas que moram num cortiço. Não há roupas de grife e nem gente bonita.

Há indivíduos de carne e osso cujas condições sociais não permitem que se apresentem de forma fina e elegante (YGLESIAS, 1990). O elenco de "Chaves", em geral, caracterizam tipos humanos desfavorecidos pela natureza: desengonçados e com rugas, magros ou gordos demais. Características que contrapõem a estética maniqueísta de Hollywood, em que o belo representa a verdade e o bem enquanto o feio representa o mal.

Em "El Chavo del Ocho" não há preocupações formais em “maquiar” as crianças da vila. São personagens infantis interpretados por adultos que utilizam roupas coloridas e têm atitudes infantilizadas e circenses. A estética hollywoodiana, apesar de tolerar estereótipos, tende a ser mais verossímil. Crianças quase sempre são interpretadas por crianças.

O mais relevante a analisar é que esse tipo de representação quebra a lógica convencional, mantendo uma certa ambigüidade: as figuras de Nhonho, Chaves, Chiquinha e Quico são interpretadas por atores adultos, mas psicologicamente representam crianças. Yglesias (1990) lembra que os telespectadores sabem desse detalhe e, mesmo assim, assimilam os personagens como figuras infantis.

Os adultos, por sua vez, também não escapam à ambigüidade, participando do jogo de desestabilização dos papéis sociais. É bastante comum vermos os personagens de Sr. Madruga, Dona Florinda, Professor Girafales, Dona Clotilde e Sr. Barriga comportando-se de modo infantil: brincam, choram, gritam e fazem gestos.

Essas atitudes, muitas vezes, criam uma ruptura da ordem estabelecida, em que adultos são normalmente responsáveis e crianças são, em parte, inconseqüentes.

Outro ponto a ser considerado: no seriado "Chaves", as famílias são incompletas. Mais uma contraposição à estética comum, em que os indivíduos geralmente possuem diversas referências de parentesco, com a presença do pai, da mãe, dos filhos e dos irmãos. Muitas sitcons americanas, por exemplo, se desenrolam dentro de um círculo familiar.

Apesar de inegáveis elementos que deturpam o padrão estético e narrativo norte-americano, "Chaves" também possui características que o afirma: o humor circense, por exemplo. Ele parece receber influência de grandes comediantes, como Cantinflas, humorista latino-americano de notável sucesso, Charles Chaplin, "Os Três Patetas" e "O Gordo e o Magro".

As comédias pastelão, o trunfo hollywoodiano das primeiras décadas do século XX, foram, sem

dúvida, relevantes na composição dos personagens e no desenvolvimento de "Chaves".

  • Referências deste capítulo:

YGLESIAS, Maria Perez. El Chavo del Occho: por que los aman los niños? Revista Herência: Editorial de la Universidad de Costa Rica (UCR), set.1990.

  • No próximo capítulo (amanhã, 25/12, às 19h): A identificação de "Chaves" com o público latino-americano.

23 de dez. de 2008

"Especial Chaves II": A caricatura da pobreza

por João Claudio Lins
  • RESUMO

2º capítulo do artigo "Chaves: um estereótipo da latinidade mexicana", escrito por João Claudio Lins.

Trata-se de uma análise, em 5 partes, do programa humorístico "Chaves", exibido no Brasil há vinte anos. O seriado concentra personagens e contextos que criam, de modo estereotipado e caricatural, uma identidade sócio-cultural do México.

O programa realiza uma espécie de anti-cultura da estética hollywoodiana, construindo personagens feios e pobres, que se cruzam num cortiço mexicano, na década de 70. Analisa-se aqui a contribuição do seriado na construção dessa identidade.

Examina-se também a forma e o conteúdo do referido humorístico, que carnavaliza a pobreza de uma comunidade e aposta na produção de um humor circense. Ao fim, faz-se uma comparação formal e narrativa do formato, a partir da afirmação e negação da estética norte-americana.
  • CHAVES E A CRÍTICA SOCIAL

Há quase 40 anos sendo exibido no México e há mais de 20 no Brasil, "Chaves" chamou a atenção do público e da crítica pelo seu conteúdo simples e despretensioso. Para se ter idéia do sucesso do seriado, seria como se o programa "Família Trapo", exibido no Brasil na década de 70, fosse visto até hoje e tivesse aceitação e repercussão entre as novas gerações.

Kashner (2006) vê o humorístico como um fenômeno televisivo. Um formato que não envelhece e que atrai cada dia mais fãs. Alguns estudiosos, contudo, discutem a “simplicidade” e a “despretensão” de "Chaves".

Domingues (2002), em um ensaio “Labirinto em vale de lágrimas televisivas”, questiona o seriado quanto à sua alienação frente à realidade mexicana. Para o autor, o seriado distancia-se do mundo em que vive, provocando nos telespectadores uma mensagem de conformismo, como se a pobreza fosse algo natural.

Para ele, "Chaves" é o produto da falta de crítica resultante de anos de ditadura. Diz que interrogar "El Chavo" é questionar um seriado que se promove com o espetáculo da miséria, que concentra histórias e contextos acerca de uma vila pobre e de uma criança desamparada.

Para ele, o enredo propõe uma ideologia estética de violência gratuita descarregada todos os dias nas consciências infantis.

Contrapondo Domingues, Yglesias (1990) aponta a valorização da ética da solidariedade sugerida pelo seriado. A autora admite, em seu ensaio publicado na revista Herência, que há, de fato, uma diferença social entre os personagens do seriado "Chaves".

Numa mesma vila, juntam-se uma família que perde o status econômico com a morte do patriarca, um menino de rua abandonado, uma anciã solitária e um desempregado viúvo que mora com a filha.

Suas aspirações sociais são diferentes. “Os personagens que vivem fora da vila não atuam como uma ameaça real para o meio: tanto o intelectual (o professor) como o proprietário (Sr. Barriga) penetram no ambiente como algo positivo, parecem querer abrir a esperança para um mundo melhor, onde todos pensem e se preocupem com os outros. (...) O problema social é um problema do Estado, da sociedade, isso é inegável. (...) O mundo que representa El Chavo del Ocho é um mundo solitário e não maniqueísta, em que os personagens não são heróis, nem anti-heróis, nem bons, nem maus. Os personagens são pessoas um pouco estranhas e pouco convencionais. São seres humanos que atuam melhor ou pior segundo as circunstâncias, ainda que a sociedade não os favoreça, representam essencialmente o positivo.” (YGLESIAS, 1990).

Para Valdizán (2005), no seriado, a fraternidade entre os personagens supera as divergências que sempre haverá entre as pessoas. Para ele, "Chaves" faz sucesso por ser um fenômeno de massa com códigos e personagens universalmente latinos: o “malandro” (o astuto que dribla a pobreza), pequenas doses de melodrama folhetinesco (satirizado pelas cenas de romance entre Girafales e Florinda), a precariedade de uma vila suburbana, entre ourtos.

Ele nos faz rir com roteiros que, em condições realistas, deveriam incomodar. Kaschner, em sua obra, aponta para a ótica humanista do seriado, afirmando que “nenhum personagem é mostrado sob a ótica maniqueísta, do bom versus o mal. Representados sob uma ótica humanista, todos têm suas nuanças. Para além do estereótipo, os personagens se mostram humanos, têm seus contrários conciliados, jamais anulados”. (KASCHNER, 2006, p.102)

Em entrevista à revista Veja, ao ser questionado sobre o posicionamento político do seriado, Roberto Bolaños defendeu-se. Para o autor, o seriado não foi concebido para criticar o modelo político em que vivemos. Mostra-se passivo às críticas e reforça que "Chaves" é apenas um humorístico infantil e que suas pretensões limitam-se à diversão e não ao protesto. (VALLADARES, 1999).

  • OS PERSONAGENS E A IDENTIDADE SÓCIO-CULTURAL DO MÉXICO

Em um contexto geral, os personagens de "Chaves", enquanto representações estereotipadas de um estrato marginalizado do povo mexicano, apresentam traços não somente sociais, mas também elementos psicológicos bem demarcados.

Expondo fraquezas, incompletudes e mesmo fracassos pessoais e profissionais, a despeito de toda a caricaturização, carregam a complexidade dos seres humanos que vivem em um ambiente pobre e excluído. Por exemplo, o personagem de Sr. Madruga é viúvo. Sua filha, Chiquinha, não tem bons modos, talvez por não ter em casa uma figura materna para orientá-la.

Dona Florinda é viúva e Quico, portanto, não tem pai. Sr. Barriga cuida sozinho de seu filho, Nhonho. O professor Girafales é um professor de escola pública solteiro.

Adoraria se casar, mas com seu ínfimo salário (professor no México também é desvalorizado) não pode sustentar mais duas pessoas.

Todos os personagens da vila sofrem preconceito contra suas condições sociais. Sr. Madruga não tem emprego. Dona Clotilde não trabalha e vive de uma pensão. Dona Florinda depende da aposentadoria de seu finado marido.

O garoto Chaves sobrevive somente da caridade alheia. Desde um ponto de vista político-ideológico, em aparência, estaríamos diante de um programa profundamente conservador. Uma atração que legitima a marginalidade, a pobreza e não propõe troca alguma (YGLESIAS, 1990).

No que se refere aos papéis de gênero, o seriado inova, quebrando a estrutura folhetinesca em que o homem é bravo, dominador e a mulher, frágil, dócil e ingênua. Além de sugerir igualdade entre os sexos, faz uma verdadeira inversão de papéis e vai de encontro ao “machismo mexicano”. Tudo isso na década de 1970.

Em matéria à revista mexicana Herência, Yglesias questiona se “aqueles que vêem o programa dentro de uma visão eminentemente política podem se perguntar: ‘Qual é a esperança de integração destes personagens ao mundo externo, à sociedade?’” (YGLESIAS 1990). De fato, "El Chavo del Ocho" não apresenta soluções nem para o México e nem para os países pobres. E parece nem ter essa pretensão. O programa foi feito apenas de trechos do cotidiano, embalados por pequenas lições de moral e lições de igualdade.

Kaschner (2006) propõe reflexões interessantes em sua obra, intitulada “Chaves de um Sucesso”: analisa fatores que exploram o jogo de espelhos entre a ficção de Chaves e a realidade latino-americana.

Destaca que a vila é um espaço peculiar de convívio de pessoas de classes sociais bastante díspares, assim como acontece nas nações subdesenvolvidas. Aponta também para o fato de os protagonistas do seriado não terem padrões importados. São mais próximos da a realidade latino-americana.

Eles vivem situações cotidianas, às vezes esdrúxulas, que se contrapõem às narrativas vitoriosas dos EUA, chamando a atenção para nossa realidade, com todas as contradições e problemáticas. Kaschner analisa, ainda, semelhanças sócio-culturais entre o Brasil e o México: imensidão do território, a pujança cultural e o grande potencial econômico em contraste com a miséria social. São povos espirituosos, que riem de si mesmo, um dos aspectos primordiais do humor.

  • Referências deste capítulo:

KASHNER, Pablo. Chaves de um sucesso. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2006
VALLADARES, Ricardo. Entrevista com Roberto Bolaños. Veja: São Paulo, 20 out, 1999.
DOMINGUES, Fernando Buen Abad. Laberinto em el Valle televisivo. Madrid: Ediciones Laberinto, 2002.
VALDIZÁN, Rafael. El Comercio. Acesso em: 16 nov. 2005.
VALLADARES, Ricardo. Entrevista com Roberto Bolaños. Veja: São Paulo, 20 out, 1999.
YGLESIAS, Maria Perez. El Chavo del Occho: por que los aman los niños? Revista Herência: Editorial de la Universidad de Costa Rica (UCR), set.1990.

  • No próximo capítulo (amanhã, 24/12, às 19h): A negação e a afirmação da estética Holywoodiana.

22 de dez. de 2008

"Especial Chaves I": O esteriótipo da latinidade mexicana

por João Claudio Lins

Um cortiço pobre do subúrbio do México, um garoto de 8 anos que passa fome, personagens caricatos, desocupados e desempregados que convivem no mesmo espaço: um roteiro propício para um melodrama, repleto de situações idealizadas, com mocinhos e bandidos, a luta do bem contra o mal, a vitória dos justos, a ascensão social e um final feliz. Até poderia ser, mas não é.

Trata-se de "Chaves", um seriado mexicano assinado por Roberto Gómez Bolaños, um inovador na linguagem humorística. Um formato que utiliza uma estética grotesca e estereotipada, linguagem cômica e que esboça uma tentativa de estereótipo da nação mexicana.

O sucesso deste programa humorístico é notável, não apenas em seu local de origem, mas em grande parte dos países latino-americanos. O apelo do conteúdo de "Chaves" já passou por milhões de lares e, mesmo sendo exaustivamente reprisado, ainda obtém êxito e reconhecimento: conhecido em mais de 120 países, exibido em 80 nações e dublado em 10 idiomas.

Mais que isso, consagra-se como um dos mais importantes produtos televisivos mexicanos já exportados. Um humorístico que reúne fragmentos de imagens de uma nação rodeada de pobreza e pessoas marginalizadas.

  • O autor e a construção do seriado

Polivalente desde pequeno. Ora, desde pequeno pode até ser uma ironia (ele mede 1,60m.), mas não há dúvidas de que o adjetivo multifacetado, referente a Roberto Gómez Bolaños, lhe cai como uma luva. Escritor, publicitário, desenhista, compositor, ator, diretor, produtor e pai de seis filhos, Bolaños provou desde cedo que seu tamanho é inversamente proporcional às suas habilidades.

Chesperito, conforme foi designado pelo diretor de cinema Augustín P. Delgado, construiu, durante sua carreira, um humor ora poético, ora debochado, ora sentimental. Talvez por toda essa diversidade de gêneros, foi apelidado de “pequeno Shakespeare”, codinome “Chesperito”.

Seu humor, provindo de muitas referências chaplinianas e cantinflanianas, foi responsável por uma grande conquista: expandir o humor escrachado e carnavalizado dos países subdesenvolvidos em todo o mundo, inclusive nas nações mais abastadas.

Bolaños foi criador de grandes personagens televisivos e literários, como Chapolim Colorado, Chaves, Chompiras, Dr. Chapatim e muitos outros fizeram a alegria de muitos telespectadores durante décadas. Dentre todos, dois ganharam programas homônimos de meia hora: "Chaves" e "Chapolim".

"Chaves", criado no início da década de 70, no México, fez sucesso sem explorar nudez, sexo e piadas chulas. Por detrás de um cenário pobre e precário, a estética circense recebe a sustentação de um roteiro bem estruturado e de atores muito preparados.

Soares (2000) relaciona as falhas técnicas do seriado com a estética do kitsch, que se entende como o gosto pelo excesso, o senso comum da estética, a arte sem revelação, pré-significada, cristalizada. Kitsch é um nome que serve para definir ornamentos e filmes que são feitos sem muita seriedade, são sentimentais e freqüentemente ridicularizados pelas pessoas por causa disso.

Segundo Eco (2000,), kitsch é a comunicação que tende à provocação de um efeito; remete a um objeto ou obra produzidos com intenção de provocar um efeito pré-significado, um senso comum da estética. Kashner (2006, p.113) discorda de Soares e defende que o seriado não pode ser considerado kitsch: “Chaves não pretende ser nada além do que é – apenas um seriado latino-americano sem dinheiro na produção – para concluir que não se trata de um seriado kitsch”.

A retomada de uma estética de espetáculo antiquado e cafona, que rejeita os aparatos técnicos, repercutiu não somente no México, mas também no mundo. Graças ao personagem Chaves, Roberto Bolaños ficou conhecido em mais de 120 países. (VALLADARES, 1999).

Atualmente, "El Chavo del Ocho" é exibido em quase toda a América Latina, tem dublagens em mais de 10 idiomas e já foi exibido em mais de 80 países. (KASHNER, 2006).

O sucesso do seriado projetou mais um fragmento do estereótipo do México para o mundo. Para Gahagan (1980, p.70), “um estereótipo é uma supergeneralização: não pode ser verdadeiro para todos os membros de um grupo (...). O estereótipo é, provavelmente, muito inexato como a descrição de um dado sujeito”.

Ao contrário das novelas mexicanas, que misturam o rico e o pobre, "Chaves" inovou ao apresentar um estereótipo que evidencia a pobreza e a estagnação social. No humorístico, o belo inexiste e as técnicas de produção são precárias. O que se vê são trechos do cotidiano de uma vila do subúrbio mexicano.

Não precisa ter nenhum senso crítico mais apurado para constatar que o seriado é uma tentativa de retrato, dominada pela caricatura que é comum a esse tipo de linguagem, dos países subdesenvolvidos, em especial do México.

Interrogado pela revista Veja sobre a inspiração do seriado, Chesperito admite uma forte referência ao subdesenvolvimento da América Latina, no contexto histórico e geográfico do autor: “Foi só olhar em volta. Existem várias favelas na América Latina, as diferenças sociais são muito grandes. O Chaves é uma criança pobre que não cresce porque não come. O personagem faz sucesso em qualquer lugar onde haja fome”. (VALLADARES, 1999, p.13).

No seriado encontramos estereótipos típicos da população marginalizada. Personagens como o Sr. Madruga, interpretado por Ramon Valdez, é um típico pai de família desempregado. Sem trabalho, vive de bicos, fugindo da cobrança do aluguel e dos demais impostos.

Nota-se, nessa figura, uma característica bastante evidente do México, a luta pelo dinheiro que garanta a sobrevivência diária. Em diversos episódios, o personagem passa grande parte do tempo no trabalho informal.

Sr. Madruga não paga o aluguel pois não tem serviço, e por isso deve favores ao dono da casa em que mora, o Sr. Barriga (Edgar Vivar), um senhor gordo, rico, com características de burguês. Nota-se, nesse contexto, uma relação de dependência entre o mais rico e o mais pobre.

Metaforicamente, pode ser vista como uma representação da condição do México: deve dinheiro, sabe dessa condição, não paga e, dessa forma, está atrelado às nações mais ricas.

O seriado "Chaves", segundo seu autor, não teve a pretensão de discutir temas sociais. Roberto Bolaños foi categórico em entrevista à revista Veja, quando questionado quanto ao conteúdo não educativo dos programas infantis: “Isto [programas com conteúdo educativo] deveria estar a cargo das emissoras governamentais. Quem tem o objetivo de divertir não tem a obrigação de educar.” (VALLADARES,1999, p.13). Bolaños salienta sim uma crítica social que pode ter uma função pedagógica, mas essa crítica não cumpre o papel de denúncia. O que o autor busca, segundo ele próprio admite, é a identificação do público com os personagens e o contexto social.

O que se pode constatar é que, de forma intencional ou não, os personagens assumem um caráter francamente simbólico.

Dona Florinda, por exemplo, é um típico exemplo de dama falida da sociedade que, depois da morte de seu marido, passa a depender da Previdência Social, empobrece e vai viver num cortiço junto à “gentalha”, como ela mesma diz.

Cumpre assim, uma trajetória contrária à estética dominante. No seriado mexicano, ao contrário dos norte-americanos, vê-se um empobrecimento dos personagens de índole boa.

No humorístico, encontramos ainda o pomposo professor Girafales (Ruben Aguirre), um homem de 40 anos, culto, que leciona em uma escola pequena, para alunos ricos e pobres, e ganha mal. Nesse caso, nos episódios gravados na escolinha do Chaves, nota-se uma certa antítese do quadro da educação mexicana.

No seriado, a escola é para todos, tanto para Chaves e Chiquinha (Maria Antonieta de Las Nieves), que são pobres, quanto para Nhonho, que pertence à classe emergente.

Ainda no cenário político, nota-se a dependência dos menos estudados aos mais esclarecidos. Todos os personagens sofrem influência do Professor Girafales, que é tido, no contexto, como uma pessoa que detém o saber.

Todos o respeitam e seguem seus conselhos. Há uma hierarquia, um fluxo não cíclico entre o emissor e o receptor, ou seja, o professor fala, a vila escuta. É uma relação passiva. Quem tem o saber tem o poder.

Outra mudança importante para o cenário mexicano dos anos 70 é a presença da mulher no mercado de trabalho. Alguns anos após estrear o seriado, a personagem de Florinda Meza deixa de ser dona de casa e abre um restaurante. A partir daí, passa a investir sua pensão em um negócio próprio.

Nota-se, nesse contexto, uma certa inversão de valores. Por um lado, a mulher exerce poder sobre o homem, por outro, a figura masculina é obrigada a lidar com os afazeres domésticos, como acontece com o Sr. Madruga.

Personagens como Dona Florinda e Sr. Madruga contrapõem, ainda, o jogo hierárquico entre macho e fêmea. Madruga, que cuida da filha Chiquinha, mostra-se uma figura masculina feminilizada: ele passa roupas, lava louças e arruma a casa.

Por outro lado, Florinda, além dos afazeres domésticos, é responsável pelo sustento da casa. É emancipada e tem um filho para criar. Por isso, paga as contas do mês e sustenta o lar.

  • Referências deste capítulo:
    ECO, Umberto. Sobre espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
    GAHAGAN, Judy. Comportamento Interpessal e de Grupo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980
    KASHNER, Pablo. Chaves de um sucesso. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2006
    SOARES, Ana Carolina. O astuto homem do barril. Contigo. São Paulo, 19/08/2004
    VALLADARES, Ricardo. Entrevista com Roberto Bolaños. Veja: São Paulo, 20 out, 1999.
  • No próximo capítulo (amanhã, 23/12, às 19h): Chaves e a crítica social; os personagens e a identidade sócio-cultural do México.